terça-feira, 19 de setembro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Devo frisar que, desde sempre, o ato de pensamento esteve voltado para os que se fazem perguntas, e não para os que já têm as respostas"

"O sentido para a pessoa é fornecido pela pluralidade das máscaras que a constituem, e pelo contexto no qual suas diversas máscaras poderão expressar-se"

"O próprio do sonho é efetivamente escapar a uma lógica de controle de si mesmo"

"As máscaras pós-modernas estão sob influência. Influência de coisas, de problemas ancestrais. Traduzem a força impessoal que, de forma subterrânea, vem de muito longe, e às vezes se exprime à luz do dia"

"Nascer com o mundo sem passar pelas palavras, eis efetivamente o que parece estar em jogo em todas as práticas tribais e em seus excessos"

"No caso, a adesão aos totens coletivos parece-me traduzir um (re)conhecimento de si como resultado de um devir. Todos estamos na estrada. A realidade é estruturalmente impermanente"

"O gênio enraizado (no sentido forte) no mundo contém em si todos os tipos humanos, o louco, o santo, o criminoso, a mamãe e a puta, sem esquecer o tipo sem qualidades que constitui o homem de todos os dias"

"Não existe, então, verdade objetiva. Só importam verdades momentâneas, factuais, ligadas às situações existenciais, tributárias das comunidades ou tribos de que todos participam"

"(...) a conexão social é feita mais de 'afinidades eletivas' que de contratos racionais. Ter ou não o 'feeling' será o critério essencial para julgar a qualidade de uma relação. E é nesse aspecto no mínimo evanescente que repousará sua durabilidade"

*Michel Maffesoli in "O ritmo da vida - Variações sobre o imaginário pós-moderno". Ed. Record. RJ. 2007. 

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Filosofia Clínica: retomada do olhar filosófico*


 “Somente quando a estranheza do ente nos acossa, desperta e atrai ele a admiração. Somente baseado na admiração [...] surge o ‘porquê’. Somente porque é possível o porquê enquanto tal, podemos nos perguntar, de maneira determinada, pelas razões e fundamentar. Somente porque podemos perguntar e fundamentar foi entregue à nossa existência o destino do pesquisador.” (HEIDEGGER, Martin. O que é Metafísica?. Col. Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1973, p. 242.)

Hoje a filosofia acadêmica ensinada nas faculdades e universidades tende a ser uma grande assimilação dos conteúdos escritos dos pensadores que nos precederam. Heidegger nos advertia em suas obras sobre a possibilidade mais comum entre os homens, que é o de estar na inautenticidade. Esta consiste no olhar derivado do mundo, na perspectiva mais cotidiana, vivendo segundo o que “se diz”. Ao contrário da autenticidade, que se dava com o olhar mais voltado para o espanto e admiração diante do que nos rodeia ou constitui nossa existência, partindo para uma experiência mais pessoal e profunda.

A inautenticidade na filosofia se mostra costumeiramente quando ao ler um filósofo, nos contentamos em compreender o conjunto de palavras escritas no livro. Mesmo que o significado de sua lógica escrita tenha ficado claro para nós e possamos até passá-los adiante, isso não é filosofia. É falar da referência feita pelo filósofo sem, contudo, voltar-se para o referenciado de fato. Ou seja, se fala de uma flor a partir de tudo o que foi escrito sobre ela, mas, não é aguçado o olhar quando, ao deixar o texto, se observa uma flor no cotidiano.

A autenticidade heideggeriana trata evidentemente de instâncias bem mais profundas. Mas, para a compreensão nossa, vamos pensar mais concretamente. Quando Heidegger se refere ao espanto e admiração da realidade, ele nos remete à experiência da própria vida. Um filósofo não escreve para nós ficarmos “divagando” sobre a composição de sua estrutura escrita. Escrever é posterior ao filosofar, ao pensamento. 

Primeiramente, o filósofo dá-se conta de algo, isso o causa certo espanto; em seguida, com admiração própria de quem se depara com o que estava velado no cotidiano, tenta compreendê-lo e, somente depois disso, se põe a escrever. Portanto, seu escrito é uma busca para que nós nos voltemos para o que ele observou, para o objeto de sua experiência. Cada filósofo nos propõe um caminho para sua experiência, e seus escritos são meios e não fins em si mesmos.

Lúcio Packter, pensador da Filosofia Clínica, talvez possa nos ajudar nesse caminho. Por meio da Filosofia Clínica podemos deixar a massa inflexível de nossas buscas filosóficas de compreender o mundo, e nos voltarmos para um sistema que aguça nosso olhar sobre o mundo que nos cerca. Desde Sócrates, a filosofia busca a compreensão partindo do homem. E a Filosofia Clínica parte desse grande mistério que é a humanidade. Mas, não busca estereotipá-la com definições pré-concebidas ou generalizar o ser humano em uma espécie de gavetas prontas, nas quais podemos colocar cada pessoa segundo um aspecto mais generalizado.

Heráclito nos apresenta o devir. Eis uma possibilidade de abertura para a compreensão do mundo: “ninguém entra no mesmo rio duas vezes”. Tudo muda. Não há fórmulas definitivas nem opções perfeitas. Os livros de auto-ajuda se multiplicam e os problemas humanos continuam. Talvez os mais beneficiados com a venda desses livros sejam os autores, os editores e as livrarias. Digo talvez, pois, para algumas pessoas as dicas podem funcionar.

Seguindo o raciocínio do devir heraclitiano, Heidegger, utilizando a perspectiva grega sobre o que é a verdade, apresenta o desvelar. Segundo o filósofo da Floresta Negra, nos abrimos à manifestação do ser que se mostra e, ao buscarmos definições que mais limita e afasta a significação do desvelado, o mesmo ser se esconde. É a dinâmica do movimento. Não há fórmulas definitivas. Podemos nos abrir ao devir do que se mostra a nossa frente, e apenas no movimento do espanto e admiração, mantermos nossos olhares aguçados para o amor ao saber.

Filosofia Clínica é uma grande possibilidade, não definitiva nem única, para aguçarmos o olhar sobre esse desvelar de uma humanidade que pede ajuda, mas, está cansada de fórmulas prontas. A felicidade, busca de muitos humanos, tem significados diferentes. E não nos cabe julgar o certo e o errado. Cabe a nós apenas auxiliá-los em suas realizações. Não temos a verdade absoluta. Nosso pensamento somente concebe o perfeito no pensamento, quando de fato o que vemos é movimento, é o devir.

Observar os homens a partir da Filosofia Clínica, nos tira da ótica da busca por mudar o mundo e nos propõe uma admiração pela busca e história da cada ser humano para sua vida. O respeito que a Filosofia Clínica nos incute, leva-nos a ser mais contemplativos da humanidade, do mundo, e menos manipuladores com nossas fórmulas prontas para “engavetar” cada tipo que encontramos. O caminho proposto por Packter é o do olhar para o que desvela, para o devir do que se mostra. Não o do olhar petrificado dos escritos que são vistos em si mesmos como o contemplado pelo filósofo.

Portanto, possa a Filosofia Clínica se tornar mais conhecida a fim de que os olhares sejam mais filosóficos e menos pedantes. Que nossas universidades se abram cada vez mais a esse novo modo de ver o mundo, sobretudo, a humanidade, e conduzam os alunos para além dos sistemas escritos, aguçando-lhes o olhar para o que de fato os filósofos perceberam. Que a abertura filosófica ao mundo, ao homem, à existência, seja o princípio do filosofar autêntico, espantando-se com o que vê com admiração e busca por compreensão.

*Prof. Dr. *Miguel Angelo Caruzo
Filósofo. Escritor. Filósofo Clínico. Livre Pensador.
Teresópolis/RJ

domingo, 17 de setembro de 2017

Ismália*


Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar…
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar…
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar…

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar…
Estava perto do céu,
Estava longe do mar…

E como um anjo pendeu
As asas para voar…
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar…

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par…
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar…

*Alphonsus de Guimaraens

sábado, 16 de setembro de 2017

A palavra reminiscência*


As narrativas da historicidade, ao reviver antigas memórias, atualizam uma retórica das evidências. Assim é possível a reinvenção pessoal na própria história. Sua matéria-prima, ao mesclar-se com os dias de hoje, é capaz de novas interseções na estrutura de pensamento. Essa intencionalidade discursiva emancipa periferias de si mesma.

Ao rememorar eventos, esses já são outros eventos. As novas ideias e vivências, ainda na perspectiva subjetiva, podem modificar a malha intelectiva. Esse movimento permite a contemplação e qualificação do ser singular na alternância dos endereços existenciais.

É comum que as antigas referências de lugar, tempo e circunstância apresentem, ao olhar de agora, um território de estranheza, o qual, ao transbordar, traduz-se como ressignificação. A reapresentação dos dados da memória atualiza o discurso pessoal para sobreviver.

A aptidão de rememorar, ao transportar e modificar suas representações, esboça uma estética para decifrar incógnitas. Sua ativação pelos relatos revividos na história de vida qualifica uma nostalgia para acordar o que dormia ou adormecer o que acordava.

O universo da subjetividade aprecia essa dialética, por onde se aventura nos territórios de sua singularidade. A palavra reminiscência acolhe e desenvolve múltiplas conjugações pessoais. Nesse sentido, os eventos do passado podem adquirir novas conformações existenciais.

Seu teor como chão de possibilidades amplia a medida de todas as coisas em cada um. Nele, os ensaios permitem entrever realidades, favorecer a exploração de improváveis territórios, conceder uma estética transformadora.

A arte da reminiscência é uma confidência muito íntima, que se realiza no discurso da clínica. Um ponto de encontro do fato histórico com sua releitura pela intencionalidade. Atividade compartilhada para revisitar atualizando aquilo até então desmerecido.

*Hélio Strassburger in “A palavra fora de si – Anotações de Filosofia Clínica e Linguagem”. Ed. Multifoco/RJ.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Uma intuição não se prova, se vivencia"

"O tempo é uma realidade encerrada no instante e suspensa entre dois nadas"

"Como realidade, só existe uma: o instante. Duração, hábito e progresso são apenas agrupamentos de instantes, são os mais simples dos fenômenos do tempo"

"(...) Mas, por firmes que sejamos, jamais nos conservamos inteiros, porque nunca fomos conscientes de todo o nosso ser" 

"Para as concepções estatísticas do tempo, o intervalo entre dois instantes é apenas um intervalo de probabilidade; quanto mais seu nada se alonga, maior é a chance de que um instante venha terminá-lo"

"(...) leva em conta não apenas os fatos, mas também, e sobretudo, as ilusões - o que, psicologicamente falando, é de uma importância decisiva, porque a vida do espírito é ilusão antes de ser pensamento"

"Mas a função do Filósofo não será a de deformar o sentido das palavras o suficiente para extrair o abstrato do concreto, para permitir ao pensamento evadir-se das coisas ?"

"Roupnel, como historiador minucioso, não podia ignorar que cada ação, por simples que seja, rompe necessariamente a continuidade do devir vital"

Gaston Bachelard in "A intuição do instante". Ed. Verus. Campinas/SP. 2007.