terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Logo refletiu que a realidade não costuma coincidir com as previsões com lógica perversa inferiu que prever um detalhe circunstancial é impedir que este aconteça"

"Hladik preconizava o verso porque ele impede que os espectadores se esqueçam da irrealidade, que é a condição da arte"

"Diferentemente de Newton e de Schopenhauer, seu antepassado não acreditava num tempo uniforme, absoluto. Acreditava em infinitas séries de tempos, numa rede crescente e vertiginosa de tempos divergentes, convergentes e paralelos"

"(...) Depois refleti que todas as coisas sempre acontecem precisamente a alguém, precisamente agora. Séculos de séculos e só no presente ocorrem os fatos"

"(...) Conheci o que os gregos ignoram: a incerteza"

"(...) Depois de nove ou dez noites compreendeu com alguma amargura que nada podia esperar daqueles alunos que aceitavam com passividade sua doutrina, e sim daqueles que arriscavam, às vezes, uma contradição razoável"

"A base da geometria visual é a superfície, não o ponto. Esta geometria desconhece as paralelas e declara que o homem que se desloca modifica as formas que o circundam"

*Jorge Luis Borges in "Ficções". Ed. Cia das Letras. SP. 2007.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Poética*


"Poesia: procura de um agora e de um aqui.”
                          Octavio Paz

A poesia é o rastro da vida. O rastro de uma explosão no universo que estilhaça em milhões de objetos, imagens, que nem todas as línguas conseguem dar conta. Mas o fato de o signo estar colado no que existe, da nuvem de linguagens, certamente é o que consegue ver além do olhar preso na realidade.

Caminhos que perdemos pode ser um leve encontro poético mediado por signos e objetos. Quem um dia atravessou, quem passou por estradas, ruas, águas e o mais distante nas alturas, pensou na construção de suas emoções? Nem tudo é poesia na vida, mas a poética está em todos os lugares.

O fato de existir narrativas sobre todas as coisas não significa que daí há poesia, mas a poesia está nela, na narrativa que diante da linguagem se faz o poético mais oculto ou mais límpido aos olhos. 

Temos depois o processo da leitura da vida: o entendimento da vida nem sempre é poético mas a beleza da forma deixa o conteúdo mais para a poesia do que para a realidade. A realidade não tem obrigação de estar dentro do poético, mas toda poesia está nas entranhas da vida.

*Prof. Dr. Luis Antonio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

domingo, 14 de janeiro de 2018

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"De fato, todo filme parece dizer que não há diferença , que a vida imaginária é tão real quanto a outra, e que a vida que tomamos por real pode a qualquer momento se tornar inverossímil, absurda, anormal, perversa, levada a extremos por nossos desejos ocultos"

"O indefinível era melhor do que o específico, ainda que exótico, Buñuel, além disso, sonhava em introduzir sorrateiramente algumas informações falsas em todos os seus filmes, como que para minar e desviar ligeiramente o rumo da história e da geografia; a verdade fiel o aborrecia tanto quanto um espartilho apertado"

"O fenômeno da identificação - a joia do cinema, a transferência mágica, a passagem secreta de um coração a outro - provavelmente está além da explicação racional. Ele mexe em demasia com parâmetros parcamente conhecidos"

"Também sabemos que de início praticamente todas as obras-primas foram rejeitadas e vilipendiadas. É quase uma regra. Toda obra realmente forte tem que incomodar. Na verdade, isso é um sinal da sua força"

"Todo o nosso século, ainda que obstinadamente concreto, parece secretamente obcecado com a criação de múltiplas materializações do invisível"

"Apesar do aparente paradoxo, parece correto, porque um verdadeiro autor nunca sabe exatamente o que quis dizer. Mal sabe o que disse. Ele é o que Victor Hugo chamou de 'a boca das trevas'. As palavras são transmitidas através dele, com frequência bastante fora de seu controle. Ela vêm de regiões obscuras; quanto mais rico e profundo for o gênio do autor, mais vastas serão estas regiões. Ele as partilha com outros e até, no caso dos maiores escritores, com toda a espécie humana, porque se torna uma das vozes da humanidade"

*Jean-Claude Carrière in "A linguagem secreta do cinema". Ed. Nova Fronteira. RJ. 1994. 

sábado, 13 de janeiro de 2018

Supermercado sentimental*


Este é um ensaio de ficção autobiográfica da série “Aconteceu com um amigo”. Qualquer semelhança com pessoas ou acontecimentos é fruto do inconsciente ou provavelmente aconteceu num mundo virtual. Se você conseguir imaginar e entrar na história, então já será realidade.

Bom dia,

Faço parte de um grupo de homens que cada vez mais cresce no mercado: separado, cinquentão, estabilizado financeiramente, à procura de uma mulher mais jovem, bonita, madura intelectualmente, companheira e independente.

Dizem que tenho “dedo podre” e só encontro mulheres problemáticas, mas a verdade é que só colocam nas prateleiras carne com papelão, leite com farinha, verdura com agrotóxico. Assim fica difícil encontrar algo de bom nas gôndolas.

O que me fascina em uma mulher é o que ela tem entre as duas orelhas. Inteligência emocional, sensibilidade, afetividade, maturidade, cultura, ética, charme, humildade, bom humor. O que encontro nas ofertas do supermercado costuma ser maquiagem, botox, alisamento, tatuagem, silicone, carência, trauma, arrogância. Nos aplicativos da Internet, o que mais chama atenção são os perfis perfeitos, quase todos falsificados ou com prazo de validade vencido. Acabo não comprando nada.

Claro que nesta busca, por vezes estou esfomeado e devoro um big mac, um chocolate qualquer numa embalagem bonita ou uma banana split bem gostosa, mas sou consciente que estou praticando uma extravagância apenas naquele dia, depois retorno com minha dieta.

Sei também que não preciso me contentar com o que sobrou no fundo da prateleira ou ofertas de ocasião. Existem mulheres fascinantes com buscas semelhantes a minha. O problema é encontrá-las e, passo seguinte, aproximar-se. Antigamente os príncipes surgiam montados em cavalos brancos ou sentados em porsches vermelhos. Hoje podem chegar virtualmente através de mensagens eletrônicas. O risco é o mesmo, por trás de um cavalo, um carro, um belo texto ou uma embalagem bonita, pode existir um sapo ou um(a) tremendo(a) idiota.

Como saber? Pesquisa, referências, experimentação, indicação. Só que chega uma hora em que as pessoas cansam desta busca  e acabam por levar qualquer coisa mesmo. É o que tenho visto em muitos relacionamentos: se todos namorassem por estar apaixonado e não por carência, o número de solteiros quadruplicaria.

Um dia meu terapeuta pegou o mapa do mundo e perguntou se eu procurava uma mulher bonita. Ao responder afirmativamente, recortou o mapa pela metade. Na seqüência, quis saber se precisava ser independente e, antes da minha resposta, já foi rasgando novamente o mapa. Quanto mais exigências eu fazia, menor ficava o papel, até que já não era mais possível segurar com as mãos. Com este exercício, pretendia mostrar que a mulher desejada existia, mas teria que procurá-la talvez a vida inteira, sem garantia de sucesso. E se por acaso a encontrasse, deveria torcer para rolar uma boa química.

A partir deste exercício, procurei diminuir minhas expectativas. Tentei abrir mão da maturidade, algumas cenas de ciúme logo contrariaram minha proposta.  Abdiquei da cultura, mas confundir Kant com cantor de rock foi demais. Quando confiei por inteiro, fui traído. Sejamos sinceros, não dá pra se contentar com um(a) parceiro(a) só porque é hétero, independente e disponível. É muito pouco. Se for bonito(a), charmoso(a) e bem humorado(a), já melhora, mas ainda falta muito. Para alguns, a lista é infinita, para outros, é mínima. 

Será que devo me conformar com o mediano, ficar na zona de conforto e desperdiçar uma existência fingindo que o coaxo é o canto do cisne? Preciso nivelar por baixo? Estou errado em idealizar a busca de minha alma gêmea? Dizem que sou exigente demais, procuro defeitos, desprezo as oportunidades e vivo fora da realidade.

Antes só, que mal acompanhado. Nem é questão de estar mal acompanhado, o problema é a sintonia. Se não for pra acrescentar, pra estar em sintonia fina, vibrando na mesma freqüência com a companheira, prefiro um livro, um filme, um tinto, um amigo. Mas a busca continua. Se atualmente os homens se encontram em vantagem numérica, as mulheres têm a vantagem de ser especialistas em pesquisas de mercado. E mais, o sexto sentido feminino é um radar muito poderoso, mas precisa estar ligado, revisado e atualizado, porque nestas pesquisas corre-se o risco de deixar para trás um ingrediente que nem foi citado, mas pode ser fatal: o amor.

Apaixonei-me por cinco mulheres ao longo da vida. Casei com duas. Amei três. Apaixonar, amar e casar são situações que se relacionam, mas sobrevivem independentemente. Quando juntas, formam um trio imbatível. Quero as três. Coladinhas. Nada menos que isso.

PS – Desculpa a brincadeira com a maquiagem, botox, alisamento e inteligência das mulheres. Foi uma figura de linguagem. Você é uma das tantas mulheres que desconstroem esta metáfora.

*Ildo Meyer
Médico. Escritor. Palestrante. Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"(...) Todavia, é no momento em que nos liberta da realidade que o devaneio é mais salutar"

"A primeira tarefa do poeta é libertar em nós uma matéria que quer sonhar"

"Há no céu tantos sonhos que a poesia, embaraçada pelas velhas palavras, não conseguiu nomear!"

"(...) o mundo sonha em nós dinamicamente"

"Se a imaginação é realmente o poder formador dos pensamentos humanos, compreender-se-á facilmente que a transmissão dos pensamentos não se possa fazer senão entre duas imaginações afinadas"

"Jack London desenvolve, a este respeito, uma teoria da dupla personalidade humana: personalidade onírica e racional, que distingue profundamente a vida de nossos dias e a vida de nossas noites"

"Para a imaginação dinâmica, o primeiro ser que voa num sonho é o próprio sonhador. Se alguém o acompanha em seu voo, é antes o silfo ou a sílfide, uma nuvem, uma sombra; é um véu, uma forma aérea envolvida, envolvente, feliz por ser vaga, por viver no limite do visível e do invisível"

"Para algumas almas, ébrias de onirismo, os dias são feitos para explicar as noites"

"Paul Valéry: 'O verdadeiro poeta é aquele que nos inspira'"

*Gaston Bachelard in "O ar e os sonhos". Ed. Martins Fontes. SP. 2001.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

O viajante de amanhãs*


“O filósofo é uma das maneiras pela qual se manifesta a oficina da natureza – o filósofo e o artista falam dos segredos da atividade da natureza.”
                     Friedrich Nietzsche

O espírito aventureiro impróprio à cristalização do saber, se refaz nas escaramuças de um território movido a movimento. Seu viés de intimidade precursora se alimenta das ruas, estradas, subúrbios desmerecidos. É incomum ser facilmente compartilhável, esses eventos anteriores ao gesso conceitual.

A irregularidade narrativa como propósito sem propósito, se reveste de uma quase poesia, para tentar dizer algo sobre os eventos irreconciliáveis com a ótica dos limites bem definidos. Essa lógica de singularidade flutuante se aplica as coisas irreconhecíveis ao vocabulário sabido.

Seu desprezo pelas fronteiras, objetivadas pelos acordos e leis, é capaz de antecipar amanhãs no agora irrecusável. Num caráter de existência marginal entre o cotidiano e a miragem das lonjuras, parece querer se estruturar nas dialéticas do acaso.

Uma espécie de não-lugar se institui numa percepção visionária das coisas e eventos ao seu redor. Os refúgios existenciais descritos na provisoriedade dos apelidos buscam a multiplicação dos exílios, onde se possa ensaiar o projeto pessoal em rotas de recomeço.

Na quimera dessas errâncias é possível antever os inéditos amanhãs. Por essa indefinição característica dos anúncios, a subjetividade, incapaz de viver sempre igual, se desdobra pelos inéditos movimentos. Assim o instante desordenado, deixando de ser apenas uma coisa ou outra, realiza uma conversação com suas possibilidades.

Por essas expressividades ainda sem objetivação, surgem desconstruções, reconstruções, buscas. Conteúdos sem um chão discursivo legível para se dizer. Uma aptidão de mistura descreve as novas verdades, recém chegando de outro lugar na própria estrutura. Assim uma correspondência se estabelece: a diversidade anunciando sua fonte de originais. Um aventureiro a contrariar insinuações de que a vida acontece numa só versão. Viajante precursor em um saber itinerante.

Nesse cotidiano estranho que não cessa de chegar, se institui algo indefinível ou apressadamente enquadrado, pelos interesses em classificar seu viés de anúncio. Numa lógica assim disposta, a única garantia é não haver garantias.

Por ser tão simples, pode não ser tão simples reconhecer a extraordinária matéria-prima nesse devir existencial. Muitas vezes se apresenta como ameaça por ser diferença. Sua erudição de aspecto nômade se apresenta em poéticas de contradição com o mundo conhecido. Para quem acreditava ter visto tudo, o vislumbre dessa perspectiva, por si só, pode compartilhar ensaios de ressignificação. 
 
É interessante notar o renascimento como superação de suas cinzas. Uma espécie mesclada de Fênix, Hermes, Dioniso, numa alma cuja característica é a percepção inquieta de algo mais diante de si. Seu instinto mutante se abastece das impermanências e, a partir desse território, desenha palavras para descrever amanhãs. 

Uma evidencia dessa provisória integração pessoal, nesses percursos de redescoberta, é a concessão de uma linguagem própria. Para saber mais é impreciso sair da zona de conforto, realizando uma reciprocidade com os tópicos marginais da própria estrutura. Desenvolver uma fluência das variadas linguagens na mesma pessoa. A epistemologia e o papel existencial apreciam a crise e o caos como movimento precursor. Sua estética de incompletude segue nas entrelinhas da indefinição. 

*Hélio Strassburger
Filósofo Clínico não filiado a ANFIC