quinta-feira, 20 de julho de 2017

Do bom, belo e aparentemente justo*


Maria tanto amava que ardia..
Mas até o último suspiro negaria...
Era direita, a Maria.
Só que todo santo dia numa saída ela pensava
Bolava, rebolava, revirava.
Nem mais dormia, a Maria.
Ainda honesta,
enlouquecida, definhava..
(nada bom) 

Foi então que conheceu Teresa.
Era bem puta, a vadia.
(faria o que o Zé gostava
que era também o que queria)
(o duplamente bom) 

Maria deu ao Zé , de presente, a Teresa
E a si própria, deu João e deu ao João...
Zé ficou alegre de repente.
Cantarolava. Assobiava. Até sorria!
Trazia flor pra Maria.
Comprava carne de primeira.
Vestido novo de chitão...
Nem cogitava um João!!!
(mas era justo, justíssimo!)

Enquanto isso a Maria
Agradecida ( e direita )
Trabalhava à tarde
E à noite dormia.
Cansada e feliz
Com o seu Zé, a Teresa
E com João., a Maria!
(bonito, muito bonito, dona Maria!)

"Quem em prol da sua boa reputação, não se sacrificou já uma vez a si
próprio?" (Nietzche)

*Aila Magalhães

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Leitor anarquista da Filosofia Cristã*

       
“Quer dizer, no momento em que adentramos o espaço da memória, entramos no mundo.”**
Paul Auster

Gosto de ler os filósofos cristãos, principalmente os dos séculos XIX e alguns do XX. Assim, ao lê-los aprendo mais do que muita ironia vã da ignorância religiosa e fanática sobre Deus. Sou de fato um ser em movimento, mas o que nunca deixou-me impressionar é a latência reflexiva dos moralistas ao tratar da vida como se ela tivesse uma base sólida para todas os questionamentos. 

Escamotear a existência em nome de um ser superior. De fato, a vida é onde tudo se inicia e tudo se perde no fim. O acontecimento tem seu apogeu. Os observadores mais atentos, os desavisados e dispersos, porém atentos, a todos que param um pouco para apenas sentir e deixar o tempo passar ou ficar parado no ato de pensar. Éttienne Gilson escreveu:

O pânico que parece se apoderar dos apologistas sempre preocupados em não perder o último navio, é algo que lhes é natural, mas não deixa de ser inútil. Não há último navio. Da popa daquele no qual você embarcar, você verá outros três ou quatro se preparando para partir.***

Ou seja, prefiro a reflexão inteligente do que ardor de uma crença, de uma outra ordem de religião. Isso se aprende ao longo dos tempos. Quantos Tempos existe quando vive em uma só vida? Depende, não da crença, a meu ver, da capacidade que se tem de encarar a realidade sem temer que a ordem das coisas não gerida pelo fervor de uma crença, mas por circunstâncias que envolvem essa vida.

No caso dos exegetas, daqueles que dedicam sua vida a interpretar, a eles meu profundo respeito, mas nem com todos me sentaria para conversar, ouvi-los. Porque se tem algo que me deixa numa profunda dislexia é o tom professoral, é querer dar aula no mais alto grau da tonalidade e expressão teatral de um professor. Isso me tira do sério, então, prefiro conversar com os livros. 

O Éttinne Gilson é meu companheiro por excelência. Com ele aprendi a ler melhor textos filosóficos, a ouvir e, principalmente, recusar verdades e tons pseudo educadores de alguns seres monocórdios. No final da última página de um Gilson, acredito cada vez menos na luz duradoura de uma Verdade única.

*Prof. Dr. Luis Antonio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

** A Invenção da Solidão. Paul Auster. Companhia das Letras, 1999.
*** O Filósofo e a Teologia. Éttinne Gilson. Paulus, 2012.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"O excesso é simplesmente revelador de um estado de espírito latente"

"(...) existe uma interação entre a 'força vital própria' de um determinado indivíduo e as 'circunstâncias exteriores', ou seja, as determinações impostas pelo destino"

"(...) da relação entre a subjetividade individual e a importância do meio, de qualquer ordem que seja"

"Acrescentarei que o redobramento é a marca simbólicas do plural. Por isso, cada um torna-se um outro. Comunga com o outro e com a alteridade em geral"

"(...) nenhum problema é definitivamente resolvido, mas que encontramos, pontual e empiricamente, respostas aproximadas, pequenas verdades provisórias, postas em prática no cotidiano, sem que se acorde um estatuto universal, oralmente válido em todo lugar, em todo tempo, e para cada um"

"Há aqui uma antinomia de valores que merece ser pensada: a morosidade do instituído, a alegria do instituinte. Antinomia que se manifesta, cada vez mais, com toda clareza, em particular nas voracidades festivas, no culto ao corpo, na exacerbação da aparência, tudo, certamente, fundado sobre a saturação do projeto longínquo e a celebração de uma espécie de instante eterno"

"O excesso sobrevém como uma vibração que legitima e dá sentido à monotonia cotidiana. A transgressão e a anomia necessitam de limites, ainda que seja somente para serem ultrapassadas"

"O bárbaro já não se opõe ao civilizado, é um de seus componentes mais fecundos. Essa conjunção é, sem dúvida, a marca essencial da pós-modernidade"

*Michel Maffesoli in "O instante eterno - O retorno do trágico nas sociedades pós-modernas". Ed. Zouk. SP. 2003. 

quinta-feira, 13 de julho de 2017

A festa e o trem*


Peregrinando vou contemplando
Pássaros e flores
Lagos e caminhos
Cabelos brancos feito algodão
Peregrinando vou sentindo
Perfumes e sabores
Arrepios de tantas belezuras
Gente sem pressa sorrindo
Peregrinando vou admirando
O simples e o complexo
A luz e a sombra
As pinturas e a natureza
Porque é verão aqui em Stresa
O trem chega
O trem parte
E tudo se faz festa

*Dra. Rosângela Rossi
Psicoterapeuta. Escritora. Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

quarta-feira, 12 de julho de 2017

A serpente que nos seduz/conduz/traduz*


      Eva era uma mulher metódica e compulsiva, para ela as coisas deveriam ser pretas ou brancas, oito ou oitenta. Não havia meio termo. As pessoas eram solteiras ou casadas, amigos ou namorados. Ignorava situações como “ficante”, “peguete” ou “amizade colorida”, que seriam representadas pela cor cinza. Para ela, cinza era uma mistura de cores, uma situação indefinida, uma transição para o autêntico. Nada a ver. As situações da vida precisavam ter cor definida, rótulo e se possível, carimbo de autenticação. Preto ou branco, solteiro ou casado, amor ou nada.

      Conheceu Adão em uma festa, trocaram telefones, conversaram bastante durante três semanas, sentiram vontade de se ver mais uma vez e marcaram um encontro para a sexta feira seguinte. Gostaram tanto um do outro, que combinaram  sair de novo no sábado. No domingo, beijaram-se. Ao se despedir, no portão de casa, Eva perguntou se estavam namorando, pois para ela, amigos não se beijam. Preto era sinônimo de amigo e branco significava namorado.

     Adão, surpreso com a cobrança, argumentou que ainda estavam se conhecendo, já considerava Eva mais que uma amiga, porém menos que uma namorada. Era muito cedo para assumirem um namoro. Eva ficou confusa, pois não conhecia aquela cor, era um cinza muito escuro, quase preto. Perdeu até a vontade de beijar. Comunicou que diante do exposto, seriam apenas bons amigos virtuais, não trocariam mais carinhos e retornou para seu branco existencial.

        Pressionado, Adão assumiu o namoro, mas foi logo avisando que terças feiras jogava futebol com os amigos, quartas frequentava a maçonaria, quintas tinha plantão no hospital e sábados, cuidava da mãe, que era doente. Namorariam na segunda e na sexta feira à noite. Domingos iriam juntos à igreja e passariam a tarde juntos.

      Eva entendia que namoro significava quartas, sextas, sábados e domingos juntos. Além disso, tinha outro credo religioso. Mais uma vez, seu branco pretendido não tinha nada a ver com o preto de Adão, surgindo um cinza escuro, diferente do anterior, mas ainda muito longe da tonalidade pretendida. Perdeu um pouco do entusiasmo, mas decidiu experimentar esta forma rasa e descolorida de namoro.

      Em poucas semanas o namoro começou a ficar confuso demais para Eva, que cobrou a presença mais efetiva de Adão na relação. Este alegava que o importante era a qualidade dos encontros e não a frequência, mas para ela aquilo não era preto nem branco e preferiu terminar de vez, apagando aquela cor estranha de sua vida. Disse ainda que não seriam nem mais amigos, pois ela o desejava como namorado e não tinha mais condições de manter a amizade.

        Certo dia, na tela preta imaculada de seu computador, Eva recebe uma mensagem de Adão pedindo para se encontrarem. Recusou, mas disse que poderiam conversar por mensagens. Aquilo representava apenas uma manchinha cinza, muito clara em seu preto existencial.

       Logo as conversas esquentaram, foram clareando a tela de Eva, que pressionou mais uma vez Adão. Voltariam a namorar desde que ele largasse o futebol e a maçonaria. Ainda não era o branco desejado, mas Eva já respirava mais aliviada.

        Durou pouco tempo esta fase mais clara. Adão quis fazer sexo, Eva pretendia casar virgem e de branco. Acinzentou tudo. Sexo antes do casamento era uma nuvem cinza muito feia, uma tempestade sujando seu vestido branco. Terminaram o namoro, Eva queimou as fotos do casal, devolveu os livros que estavam em sua casa, e solicitou que ele nunca mais a procurasse. Quase o expulsou de casa. Demorou uns dias, o cinza foi sumindo, porém nunca mais o branco nem o preto de Eva foram os mesmos.

        Ainda tentaram mais algumas vezes transformar o preto no branco sonhado por Eva, mas ela não conseguia suportar os tons cinza da transição. Adão se esforçava, mas não sabia como fazer, não era pintor, tampouco mágico. Sua natureza acabava sempre escurecendo o branco sonhado por Eva, que com o tempo já era desbotado e sujo. Eva sonhava com o paraíso, mas estava longe disso.

        O tempo passou e um belo dia o destino aprontou. Uma serpente muito esperta, explicou a Eva que o branco e o preto, convencionalmente designados por cores, nada mais são que o resultado da presença ou ausência de luz, que em sentido figurado significa conhecimento, sabedoria, tranquilidade, amor.  Não eram cores autênticas. O branco é a luz pura, onde há uma mistura total das sete cores e, o preto, a ausência total de luz. 

       Além disso, a serpente explicou o conceito de Yin e Yang no taoísmo. Duas forças opostas que expõem a dualidade de tudo que existe no universo. Estes dois pólos arquetípicos são representados pelo branco e preto, claro e escuro, representando o inflexível e o dócil, o acima e o abaixo. No entanto, não existe simetria estática no diagrama. As cores estão em um constante movimento cíclico. Dentro do pólo branco, existe um pequeno ponto preto, e no polo negro, um pequeno ponto branco fazendo o contraste, e simbolizando a ideia de que, toda vez que uma das forças atinge seu extremo, manifesta dentro de si a semente de seu oposto.

     Complicou demais a cabeça de Eva. Preto e branco, que sempre foram seus limites para a vida, deixaram de ser referência e até mesmo cores.  O preto em que antes vivia, agora significava uma ausência de cor, de luz e de amor.  O branco que sonhara seria uma mistura e não a pureza imaginada?

      Estonteada, confusa, Eva perdeu o sono. Não sabia mais no que acreditar. Andou um tempo sem rumo, tropeçou, caiu na cama de Adão. Este a acolheu, envolveu em seus braços, manchou seu vestido existencial de vermelho. Eva entregou-se e nunca mais foi a mesma. Virou mulher, finalmente. Adão também nunca mais foi o mesmo, transformou-se em companheiro. Estão felizes. Às vezes é preciso fechar os olhos para clarear a visão e perder o rumo para encontrar o sentido.  Conduzidos pela serpente, Adão e Eva retornaram ao paraíso, um lugar onde todas as cores combinam e os preconceitos se calam.

*Ildo Meyer
Médico. Escritor. Palestrante. Mágico. Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS