sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Mãos de palavras*


“Toda boa escultura, toda boa pintura, toda boa música, sugere os sentimentos e os devaneios que ela quer sugerir. Mas o raciocínio, a dedução, pertencem ao livro.”
Charles Baudelaire

Ela inclinou o corpo até o outro lado da mesa, ali estava ela, com os olhos nos seios, com os olhos no cálice, com a boca em suas frases, inclinou um pouco mais do que o normal, quase na horizontal, mais do que fazia em outras situações.

Um lugar público, um olhar íntimo, uma voz que parecia vir das caixas de som, que vinha das imagens da tela, entravam mãos e braços, o outro lado da mesa estava ele com os olhos em seus lábios, o movimento da língua, imaginação de que a liberdade pudesse existir na língua...a partir do começo na linguagem nasce um texto, um verso morre no copo ou no corpo das palavras.

Ela do outro lado da mesa disse – estou com sede, favor me servir um cálice, eu sei que minha voz é melhor que o que escrevo, mas sua escrita não é minha companheira já um tempo, então me escuta, eu quero um gole do teu gole, meus seios são só de quem vê a vida, tipo, tipo, eu mesma, o resto que se foda...enche esse cálice e a vida ficará melhor com nós dois aqui neste lugar em que não se vê mais mãos sobre mãos.

*Prof. Dr. Luis Antonio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Não sei quantas almas tenho*


Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu.

*Fernando Pessoas

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Da natureza inédita em todas as coisas*


“No poetar do poeta, como no pensar do filósofo, de tal sorte se instaura um mundo, que qualquer coisa, seja uma árvore, uma montanha, uma casa, o chilrear de um pássaro, perde toda monotonia e vulgaridade.”
Martin Heidegger

Um cotidiano plural se abre frente ao espelho das singularidades. Nesse viés discursivo recém chegando, oferece seus inéditos numa língua estranha. Por seu caráter de novidade, recusa o gesso da classificação especialista. Numa interseção de acolhimento e partilha, concede alguma visibilidade ao que restaria desconhecido.

Em uma experiência de transbordamento excepcional, num tempo subjetivo e de local indeterminado, a estrutura de pensamento se refaz. Nesse ímpeto de incertezas, um teor de expressividade transgressora se deixa entrevistar, seus deslizes narrativos, olhares desfocados e a escuta das lógicas sem sentido, apontam suas fontes de inspiração.

Uma hermenêutica compreensiva acolhe a desestruturação fundante, seu aspecto de estranheza refere o sujeito acessando algo em vias de tornar-se. Seu aparecimento, num viés discursivo singular, escolhe quando e a quem se mostrar, apresentando-se quase invisível ao espírito de rebanho das unanimidades.

É incrível notar que a cada pessoa compete uma fatia generosa de realidades. Para acessá-las reivindica-se uma distorção às novas frequências existenciais. Embora convivendo em contextos de semelhança e entendimento, o que se destaca é o ângulo inédito recém chegando. Aqui não se trata de ser o primeiro ou o último em qualquer coisa, mas de uma relação insubstituível consigo mesmo.

Ao entrever originalidades descreve-se em novas conformações, emancipa fronteiras, destitui certezas, amplia as definições do indefinido. Uma interrogação assim descrita pode se reinventar numa poética das reticências. Talvez uma intuição sobre a natureza inteira refugiada num sopro de vida.

Nesse anúncio de algo por vir, a essência do “carpe diem” pode acessar a decifração parcial do enigma multiplicando-se. Aqui se cogita sobre uma pátria de exilados, em uma língua estranha, a proteger os inéditos territórios. Vislumbres da eternidade ancorada num aqui-agora, quiçá porta-voz da natureza inédita em todas as coisas.

*Hélio Strassburger

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"(...) subentende-se que jogos de palavras, adivinhações, malabarismos verbais constituem, nas tradições arcaicas, um modo de dizer que agrada aos deuses e de que estes fazem grande uso"

"(...) antes de ela ser palavra, denunciando-a já como logos, esse substantivo altamente singular no qual se retém a origem não falante daquilo que incita à fala e que, em seu nível mais alto, ali onde tudo é silêncio, não fala, não esconde, mas faz sinal"

"(...) Abraão separando-se do que é e afirmando-se estrangeiro para responder a uma verdade estrangeira. O hebreu passa de um mundo - o mundo constituído da Suméria - a um 'não ainda mundo', e que é entretanto o terreno; barqueiro, o hebreu Abraão não só nos convida a passar de uma margem a outra, mas também a ser por ele conduzidos aonde quer que haja uma passagem a realizar, mantendo esse entre-duas margens que é a verdade da passagem"

"(...) a palavra é a terra prometida em que o exílio se cumpre em estadia, pois não se trata se estar em casa aí, mas sempre no exterior, num movimento em que o estrangeiro se entrega sem renunciar a si"

"Nietzsche é inesgotável na expressão dessa felicidade de conhecer e de buscar livremente, infinitamente, a todo risco, sem ter o céu como limite e nem tampouco a verdade, a verdade excessivamente humana, como medida. Não se pode lê-lo sem ser arrebatado juntamente com ele pelo puro movimento da busca"

"(...) uma forma tal marca sua recusa a um pensamento (...) esteja ligada à mobilidade da pesquisa, ao pensamento viajante (o de um homem que pensa caminhando e segundo a verdade do caminhar)"

"(...) A fala de fragmento ignora a suficiência, ela é insuficiente"

"(...) o sentido é sempre vário, que há superabundância de significações e que 'Um sempre está equivocado' (...) Leitura de um texto de vários sentidos e não tendo assim outro sentido a não ser 'o processo, o devenir' que é a interpretação (...)"

"(...) Esse outro estranho pluralismo, sem pluralidade nem unidade, que a fala do fragmento leva em si como a provocação da linguagem, aquela que ainda fala quando tudo já foi dito"

*Maurice Blanchot in "A conversa infinita - a experiência limite". Ed. Escuta. SP. 2007.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Uma poesia dos abraços*


Jamais deixamos de orbitar em nós mesmos, por isso, o contato com outras vidas é tão determinante e fundamental. É esse o fenômeno que nos lança na direção das descobertas que tanto precisamos encontrar e que sempre provém de dentro para fora de nós mesmos. E assim, me parece que prosseguimos produzindo pontes altamente capazes de nos conectar, sobretudo, quando ousamos atravessá-las. 

Foi assim que encontrei em tantos abraços a força que faltava, pois de tão apertados, "pois-se" tudo no lugar. Foi assim, que os melhores momentos se tornaram eternos figurando sempre no agora. Foi assim, que um beijo roubado despertou as melhores flores dos jardins de duas almas, as quais, em silêncio, conhecem a fundo os legados que deixaram tão somente por amor. Foi assim que a poesia transbordou em mim trazendo a tona o melhor de nós mesmos e ainda, por conseguinte, o melhor que podíamos alcançar. 

Foi assim que nós nos transformamos e nos superamos juntos, não raro sob a aurora das suas brisas e sombras tão confortantes. E fora justamente desses confortos que pude extrair forças para que outras vezes eu pudesse nos manter firmes mesmo quando a terra parecia tremer anunciando uma grande tempestade. 

Portanto, pouco importa se a poesia aqui existe ou persiste, porque o seu ímpeto mais sincero do início ao fim mesmo não crendo em finitude, é que cada vez mais tudo venha a se converter ora em ecos de resistência e luta; ora de liberdade e gratidão. Musa!

*Prof. Dr. Pablo Mendes
Filósofo. Educador. Filósofo Clínico. Professor Titular na Casa da Filosofia Clínica
Uberlândia/MG

domingo, 15 de outubro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"É Surpreendente como, quando meus pacientes e eu estamos em sintonia, nossas redes neurais parecem fazer contato num nível que não posso descrever com palavras"

"(...) qualquer experiência produz uma alteração em sua mente"

"(...) a psicoterapia modifica, de início, as conexões funcionais entre os neurônios, para depois converter essas transformações funcionais em mudanças na estrutura concreta do próprio córtex cerebral"

"Não posso pressupor que minhas ideias sejam prova definitiva de algo sobre Ted, embora muitos terapeutas caiam nessa armadilha; minhas associações são minhas próprias pistas pessoais, guardando talvez uma relação tanto com minhas experiências e personalidade quanto com as de Ted. Somente as associações dele constituem dados legítimos que podem me ajudar a definir o que contêm suas redes"

"(...) o cérebro humano, possui mecanismos biológicos que torna possível alterar as conexões entre os neurônios. Mostrarei por que acredito que a psicoterapia, literalmente, modifica a estrutura do cérebro e, assim fazendo, altera o modo de interligação dos sentimos e ideias na mente"

"Trabalhando com Alice em psicoterapia, tenho de visualizar o mapa em ziguezague de sua mente e explorar sua ilha da 'Terra do Nunca' na sua companhia"  

"Como uma boa mãe, tenho de ser capaz de amar meus pacientes como são agora, imaginando futuros plenos de possibilidades para eles e, no entanto, respeitando as escolhas que fizerem. Embora por algum tempo eu tenha imaginado Alice descendo da montanha, é possível que, depois de uma psicoterapia bem-sucedida, ela opte por ali viver para sempre"

*Susan C. Vaughan in "A cura pela fala - a ciência por trás da psicoterapia". Ed. Objetiva. RJ. 1998.

sábado, 14 de outubro de 2017

Manoel por Manoel*


Eu tenho um ermo enorme dentro do olho. Por motivo do ermo não fui um menino peralta. Agora tenho saudade do que não fui. Acho que o que faço agora é o que não pude fazer na infância. Faço outro tipo de peraltagem. 

Quando eu era criança eu deveria pular muro do vizinho para catar goiaba. Mas não havia vizinho. Em vez de peraltagem eu fazia solidão. Brincava de fingir que pedra era lagarto. Que lata era navio. Que sabugo era um serzinho mal resolvido e igual a um filhote de gafanhoto.

Cresci brincando no chão, entre formigas. De uma infância livre e sem comparamentos. Eu tinha mais comunhão com as coisas do que comparação.

Porque se a gente fala a partir de ser criança, a gente faz comunhão: de um orvalho e sua aranha, de uma tarde e suas garças, de um pássaro e sua árvore. Então eu trago das minhas raízes crianceiras a visão comungante e oblíqua das coisas. 

Eu sei dizer sem pudor que o escuro me ilumina. É um paradoxo que ajuda a poesia e que eu falo sem pudor. Eu tenho que essa visão oblíqua vem de eu ter sido criança em algum lugar perdido onde havia transfusão da natureza e comunhão com ela. Era o menino e os bichinhos. Era o menino e o sol. O menino e o rio. Era o menino e as árvores.

*Manoel de Barros

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Mas que lentidão de meditação precisaríamos adquirir para viver a poesia interior da palavra, a imensidão interior de uma palavra. Todas as grandes palavras, todas as palavras convocadas para a grandeza por um poeta, são chaves do universo, do duplo universo do Cosmos e das profundezas da alma humana"

"Para Baudelaire, o destino poético do homem é o de ser o espelho da imensidão; ou, mais exatamente ainda, a imensidão vem tomar consciência de si mesma no homem. Para Baudelaire, o homem é um ser vasto"

"O sonhador faz correrem ondas de irrealidade sobre o que era o mundo real"

"O fato de descrever objetivamente um devaneio já é diminuí-lo e interrompê-lo. Quantos sonhos contados objetivamente que nada mais são que onirismo feito pó! Ante uma imagem que sonha, é preciso tomá-la como um convite para continuar o devaneio que a criou"

"Os caracóis constroem uma casinha que carregam consigo. Assim, o caracol está sem em casa, qualquer que seja a terra onde viaje"

"Para entrar no âmbito do superlativo, é preciso trocar o positivo pelo imaginário. É preciso escutar os poetas"

"Alojado em toda parte, mas sem estar preso a lugar algum: essa é a divisa do sonhador de moradas"

"Tornar imprevisível a palavra não será uma aprendizagem de liberdade ? Que encanto a imaginação poética encontra em zombar das censuras (...) A poesia surge então como um fenômeno de liberdade"

*Gaston Bachelard in "A poética do espaço". Ed. Martins Fontes. SP. 2003.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Sem discípulos*


“Objeto é apenas o que pode ser ocupado e abandonado.”
Peter Sloterdijk

Nenhum homem, nenhum momento, nem a flor do pensamento, meio olho e uma frota de navios imaginários a se perder na linha do tempo. De nunca mais poder retornar à terra segura, mesmo sendo o que ilumina as ideias, anda, por ora, a procurar o fantasma do passado, uma obsessão do demônio da igualdade nos poros biológicos predestinados a sobreviver ao sol. O novo tempo é a estranha forma de matar e limpar as ruas em nome de uma integridade tenebrosa. A moralidade se impõe como ordem dos néscios de alma que evocam a religião, a ciência e até a arte de matar o próximo.

O homem deste século sabe tudo, até mesmo crê que é inferior a deus para matar em nome de um deus. Prefiro ver o rio caudaloso de ideias se perder em ruas, túneis profundos, em pedras que escondem os desconhecidos a morrer na ordem do exército de mosquitos que sugam o sangue da maioria que pondera. Na fuga, atravessar oceanos, cruzar fronteiras sem olhar para trás com medo de sua própria cola que pega fogo feito fuga de animais racionais que escolheram se mesclar com a resignação das teorias fatalistas.

Um espetáculo público se monta lá do alto do poder celestial, todo homem que tem altivez e acredita no destino crê se salvar. Por outro lado, o que faz da fuga eterna seu imaginário, a poética e o país é quem talvez encontre o verdadeiro medo e força de forjar um novo tempo de flanar. Diria um quase andar em nuvens e um deslizar em águas profundas até chegar à margem e ver que na fuga todos são iguais e que, de uma hora para outra, retornam os dogmas em roupas e véus.

*Prof. Dr. Luis Antonio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Esperança*


Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E — ó delicioso voo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança…
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA…

*Mário Quintana

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"(...) felizmente para a humanidade, cada homem é só quem é, sendo dado ao gênio, apenas, o ser mais alguns outros"

"Há metáforas que são mais reais do que a gente que anda na rua. Há imagens nos recantos de livros que vivem mais nitidamente que muito homem e muita mulher" 

"Transeuntes eternos por nós mesmos, não há paisagem senão o que somos. Nada possuímos, porque nem a nós possuímos. Nada temos porque nada somos. Que mãos estenderei para que universo ? O universo não é meu: sou eu"

"Qualquer coisa, conforme se considera, é um assombro ou um estorvo, um tudo ou um nada, um caminho ou uma preocupação. Considerá-la cada vez de um modo diferente é renová-la, multiplicá-la por si mesma. É por isso que o espírito contemplativo que nunca saiu da sua aldeia tem contudo à sua ordem o universo inteiro. Numa cela ou num deserto está o infinito"

"(...) Que coisa morro quando sou ?"

"Deus é o existirmos e isto não ser tudo"

"Pertenço, porém, àquela espécie de homens que estão sempre na margem daquilo a que pertencem, nem vêem só a multidão de que são, senão também os grandes espaços que há ao lado"

"Vivemos todos, neste mundo, a bordo de um navio saído de um porto que desconhecemos para um porto que ignoramos; devemos ter uns para os outros uma amabilidade de viagem"

*Fernando Pessoa in "Livro do Desassossego". Ed. Cia de Bolso. SP. 2014

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Dançar e Punir*


“E assim, à medida que o sol se punha, uma visão foi se impondo aos meus olhos.”
Antonin Artaud

Nas redes sociais as pessoas que gostam de legitimar a cultura do óbvio, da constatação, da quantidade, essas, emburreceram de vez. Jogam suas frustrações na falta de tempo para compreender a vida, naquilo que ela possa nos apresentar de novo, de desconhecido.

A vida é o tempo de todas as coisas, o mais simples é o extremo, destruidor ou construtivo: arrasar ou adorar. É mais fácil primeiro adorar, depois, em outro sentido, destruir o pensamento contrário; sem se dar conta, pode-se estar cavando o próprio erro: o fim é o limite para o pensamento duro.

O que vem a ser o pensamento duro, bruto? É o pensar dentro da construção cultural dual, em que existem os polos do bem e do mal. Essa religiosidade racional é parte da vida, é claro, não serei eu a refutar todas as manifestações pelo simples fato de pensar diferente. Eis a reflexão dos frágeis, pensar, refletir, o contraponto do monismo deste tempo irredutivelmente evaporizado no digital DNA das fraquezas brutais dos homens; está faltando Alteridade.

*Prof. Dr. Luis Antonio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Uma palavrinha sobre os fazedores de poemas rápidos e modernos*


é muito fácil parecer moderno
enquanto se é o maior idiota jamais nascido;
eu sei; eu joguei fora um material horrível
mas não tão horrível como o que leio nas revistas;
eu tenho uma honestidade interior nascida de putas e hospitais
que não me deixará fingir que sou
uma coisa que não sou —
o que seria um duplo fracasso: o fracasso de uma pessoa
na poesia
e o fracasso de uma pessoa
na vida.
e quando você falha na poesia
você erra a vida,
e quando você falha na vida
você nunca nasceu
não importa o nome que sua mãe lhe deu.
as arquibancadas estão cheias de mortos
aclamando um vencedor
esperando um número que os carregue de volta
para a vida,
mas não é tão fácil assim —
tal como no poema
se você está morto
você podia também ser enterrado
e jogar fora a máquina de escrever
e parar de se enganar com
poemas cavalos mulheres a vida:
você está entulhando a saída — portanto saia logo
e desista das
poucas preciosas
páginas.

*Charles Bukowski

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Para nós, que hoje encontramos todas as vias livres, que pensamos que tudo está ainda por dizer e por vezes somos tomados de vertigem diante desses espaços vazios que se estendem à nossa frente, nada é mais alheio que as queixas desses homens amarrados, confinados num solo demasiadamente trabalhado, cem vezes revolvido, e que procuram ansiosamente um torrão de terra virgem" 

"Renard escreve em 7 de janeiro de 1889: 'Pôr na abertura do livro: "Não vi tipos, mas indivíduos". O cientista generaliza, o artista individualiza'" 

"(...) o olho prefigura, seleciona aquilo que vê. E esse olho não está dado de saída: ele tem de inventar sua maneira de ver; por isso determina-se a priori e por uma livre escolha o que se vê. As épocas vazias são aquelas que escolhem se ver com olhos já inventados. Elas não podem fazer mais que refinar as descobertas das outras; pois aquele que traz o olho traz ao mesmo tempo a coisa viva"

"Blanchot nos revela o segredo dessa tentativa quando nos explica que o escritor deve falar para não dizer nada. Se as palavras se aniquilam umas às outras, se se desfazem em pó, acaso não surgiria por trás delas uma realidade finalmente silenciosa ?"

"(...) ninguém pode penetrar no universo dos sonhos se não está dormindo; da mesma forma, ninguém pode entrar no mundo fantástico se não se torna fantástico"

"(...) há quatrocentos anos os filósofos e os cientistas vêm se empenhando em quebrar os quadros rígidos do conceito, em consagrar em todos os domínios a proeminência do julgamento livre e criador, em substituir o devir à fixidez das espécies"

"O homem não é em absoluto a soma do que tem, mas a totalidade do que ainda não tem, do que poderia ter"

"Para compreender as palavras, para dar um sentido aos parágrafos, é preciso primeiro que eu adote seu ponto de vista, que eu seja o coro complacente. Essa consciência só existe por meu intermédio; sem mim haveria apenas borrões negros sobre folhas brancas"

*Jean-Paul Sartre in "Situações I - Críticas literárias". Ed. Cosacnaify. SP. 2005.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

A palavra território*















Num visar repleto de possíveis, as singularidades deixam entrever vontades. Os termos agendados descrevem um ser indeterminado. Nesse endereço subjetivo onde se exercita existencialmente, a pessoa elabora rituais, apropria-se de pensamentos e atitudes, indica regiões para manutenção de seu contexto.

Ao localizar esse vislumbre de um chão por traduzir, o sujeito, em seus desdobramentos cotidianos, refere a expressividade como chave de acesso à essa intimidade, nem sempre acessível ao dado literal. Seu teor concede a duração possível por ser esboço. As possibilidades da linguagem derivam desses trânsitos pessoais.

Na distorção do olhar é possível visualizar os contornos desse continente a se mover. Assim, a realidade se institui, significa-se, desdobra-se na invisibilidade do instante. Seu aparecer inédito contrapõe-se ao ser previsível. A crise, nesse contexto de pretensão definitiva, costuma se instalar como contradição, ditos estrangeiros, evasivas, delírios precursores.

Uma confluência sobre as delimitações do possível, ao desconsiderar a utopia, o sonho, costuma alimentar a fome de irrealidade. Os eventos assim classificados, instituídos por sanção ou decreto, prescrevem a objetividade como norma, alertando sobre os limites da especulação. Antecipadamente, pode-se mapear, tipologizar a pessoa contida nos limites da palavra território. Nesse sentido, a normalidade, quando corrompida pela surpresa do fato novo, tende a reagir contra as ameaças de transgressão.

Esse fundamento de originalidade, ao contribuir para a identidade singular, também pode rastrear princípios de verdade. Ao tornar visível esse mundo subjetivo, pode-se desconstruir a equivocidade de ter visto tudo o que existe.

Sua presença inédita se insinua nos deslizes da realidade conhecida. A mescla dessas águas antecipa a integração do antigo com o novo. Sua referência é um incerto caos a embalar travessias. A distorção, o erro, a contradição, possuem um caráter de afrontar os limites estabelecidos. Dessa coexistência problemática, é possível integrar antíteses nos rumores da nova sintaxe.

Enquanto acolhe a percepção das finitudes, elabora a trama contida nas dobras do que é permitido. Situando as tramas discursivas, em busca de entendimento sobre a origem dos relatos desencontrados, oferecendo uma leitura compartilhada sobre a estrutura do fenômeno diante de si.

Nesse espaço investigativo, o exercício das releituras denuncia a obra em nova perspectiva. Por esse caminho descritivo, pode-se ampliar a visão sobre a teia de onde brotam os rumores. A análise e a interpretação compreensiva da palavra território, para além da literalidade, apreciam subverter e ampliar fronteiras.

*Hélio Strassburger

domingo, 1 de outubro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Os homens buscaram parentesco com os derrotados troianos, e não com os vitoriosos gregos. Isso talvez porque haja uma dignidade na derrota que dificilmente faz parte da vitória"

"As palavras, diz Stevenson, são destinadas ao comércio habitual do dia-a-dia, e o poeta de algum modo as converte em algo mágico"

"(...) imagino que uma nação desenvolve as palavras de que necessita"

"Há versos, é claro, que são belos e sem sentido. Porém ainda assim têm um sentido - não para a razão, mas para a imaginação"

"Acho, porém, que o fato de termos longos catálogos de palavras e explicações nos faz pensar que as explicações esgotam as palavras, e que qualquer uma dessas moedas, dessas palavras, pode ser trocada por outra"

"(...) Quando penso em amigos meus tão caros como Dom Quixote, o sr. Pickwick, o sr. Sherlock Holmes, o dr. Watson, Huckleberry Finn, Peer Gynt, etc.. (não estou certo se tenho muito mais amigos)"

"(...) Volto àquela tarde sul-americana já antiga e vejo meu pai. E o vejo nesse momento; e ouço sua voz dizendo palavras que eu não compreendia, e no entanto sentia"

"(...) gostaria de dizer que cometemos um erro bastante comum ao pensar que ignoramos algo por sermos incapazes de defini-lo"

"Creio que Emerson escreveu em algum lugar que uma biblioteca é um tipo de caverna mágica cheia de mortos. E aqueles mortos podem ser ressuscitados, podem ser trazidos de volta à vida quando se abrem as suas páginas"

*Jorge Luis Borges in "Esse ofício do verso". Ed. Cia das Letras/SP. 2007.

sábado, 30 de setembro de 2017

Mais do que erudito, o estudante de Filosofia deve ser um pensador*


A concepção do estudo filosófico como um processo de aquisição de conteúdos, a ponto de tornar o estudante um erudito, não só é recorrente como constitui uma característica comum quando se pensa em uma formação filosófica. É nesse sentido que Folscheid e Wunenburger afirmam que:

“A tentação clássica de muitos estudantes sérios é [...] enxergar com complacência essa operação de recuperação, que consiste em suprir as próprias fraquezas pela riqueza de pensamentos que se acumulam como bens adquiridos”[1].

Trata-se, portanto, de uma tentação que não se encontra somente presente na vida do estudante mediano, como também na prática dos estudantes sérios. Desse modo, ao ceder a essa tentação, o estudante torna-se pronto para defender todas as questões apresentadas pela filosofia valendo-se, para isso, daquilo que os outros filósofos disseram.

Com isso, um estudante de filosofia, tratará a filosofia como um corpo de respostas às perguntas que lhe são feitas ou como um oráculo de onde se encontra a solução para os problemas. Assim, é comum ver o recurso à autoridade de um filósofo clássico como aquele que traz a resposta definitiva. E em busca dessas respostas, o estudante perpassa toda a história do pensamento filosófico em busca das melhores. No entanto:

“A história da filosofia não é [...] uma loja de pensamentos prontos, onde se vestiria, como uma roupa, o que é apresentado no mostruário. A menos que se tomem o pensamento por um cabide a ser recoberto, o que o condena a tornar-se, conforme o caso, em um manequim ou espantalho. Em vez de servirem ao pensamento, os conhecimentos tornam-se então um obstáculo”[2].

Portanto, a filosofia deve ser vista como uma atividade na qual o estudante é convidado a participar ativamente de cada passo da investigação. Quando lê, por exemplo, a Metafísica de Aristóteles, o ideal é acompanhá-lo a cada ponto de sua reflexão em busca de “ver” aquilo sobre o qual ele versa. Desse modo, a Metafísica deixa de ser um conjunto de postulados ou de sentenças que serve para ser citado em uma redação ou em um discurso, e passa a ser um processo de pensamento que o leitor deve acompanhar para pensar junto com o próprio Aristóteles com o intento de perceber o modo como ele viu seu “objeto”, isto é, como ele pensou aquilo que foi pensado.

Ao enveredar pelos estudos filosóficos, o conteúdo não é algo a ser decorado, mas algo a ser devidamente pensado. O estudante mais compreende realmente o filósofo na medida em que acompanha cada uma das palavras de um texto ou de uma palestra, pensando junto. Por mais genial que pareça uma sentença filosófica, se ela não for lida com o sentido proposto pelo filósofo, ela não passa de flatus vocis, pura emissão fonética sem seu real sentido.

*Prof. Dr. Miguel Angelo Caruzo
Filósofo. Escritor. Filósofo Clínico. Livre Pensador.
Teresópolis/RJ

[1] FOLSCHEID, Dominique; WUNENBURGER, Jean-Jacques. Metodologia filosófica. trad. Paulo Neves. 3ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006, p. 8.

[2] FOLSCHEID, Dominique; WUNENBURGER, Jean-Jacques. Metodologia filosófica. trad. Paulo Neves. 3ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006, p. 9.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Mundo*

                        
“A compreensão significa o projetar-se em cada possibilidade de ser-no-mundo [...] existir como essa possibilidade.”
Martin Heidegger

O mundo é velho, vejo a foto, vejo a vida,
O mundo não passa da minha memória, ele se perde.
O mundo é uma árvore que virou pedra, o mundo é mais velho que minha dor.
O mundo circula a Terra, a velhice é o mundo, meu capuz é velho, tão velho que minha amada foi embora para outro mundo.
O mundo é o tempo que levo até meu trabalho, o lugar que invento mundos, que envelheço com minha dor e procuro fugir deste mundo naufragado, meu país é novo. Sou velho demais para o meu País.
Pudesse eu, se quisesse, te daria um mundo, o melhor dos mundos.
Não posso comprar nada, nem tudo nem nada, te devolvo os sonhos.
Vou dar a volta ao mundo, circular é a fonte de vida, quando menos se espera tem uma nascente.

*Prof. Dr. Luis Antonio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Aprendimentos*


O filósofo Kierkegaard me ensinou que cultura
é o caminho que o homem percorre para se conhecer.
Sócrates fez o seu caminho de cultura e ao fim
falou que só sabia que não sabia de nada.

Não tinha as certezas científicas. Mas que aprendera coisas
di-menor com a natureza. Aprendeu que as folhas
das árvores servem para nos ensinar a cair sem
alardes. Disse que fosse ele caracol vegetado
sobre pedras, ele iria gostar. Iria certamente
aprender o idioma que as rãs falam com as águas
e ia conversar com as rãs.

E gostasse mais de ensinar que a exuberância maior está nos insetos
do que nas paisagens. Seu rosto tinha um lado de
ave. Por isso ele podia conhecer todos os pássaros
do mundo pelo coração de seus cantos. Estudara
nos livros demais. Porém aprendia melhor no ver,
no ouvir, no pegar, no provar e no cheirar.

Chegou por vezes de alcançar o sotaque das origens.
Se admirava de como um grilo sozinho, um só pequeno
grilo, podia desmontar os silêncios de uma noite!
Eu vivi antigamente com Sócrates, Platão, Aristóteles —
esse pessoal.

Eles falavam nas aulas: Quem se aproxima das origens se renova.
Píndaro falava pra mim que usava todos os fósseis linguísticos que
achava para renovar sua poesia. Os mestres pregavam
que o fascínio poético vem das raízes da fala.

Sócrates falava que as expressões mais eróticas
são donzelas. E que a Beleza se explica melhor
por não haver razão nenhuma nela. O que mais eu sei
sobre Sócrates é que ele viveu uma ascese de mosca.

*Manoel de Barros

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Ensinamento*


Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
"Coitado, até essa hora no serviço pesado".
Arrumou pão e café , deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.

*Adélia Prado

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"(...) a literatura de Noll (João Gilberto Noll) tira sua força da vida interior e de seus abismos, não dos fenômenos sociais, ou naturais, disponíveis a médicos e sociólogos"

"Como Clarice e Kafka, é um escritor que pouco está se importando com a tradição literária, com o desenrolar monótono de tendências e de gêneros, ou mesmo com a recepção do que escreve - até porque cada leitor lê aquilo que quer e que pode ler, e nada mais"

"Uma literatura que se calca no inconsciente e que se move nas frestas do irracional, que se faz às cegas e a cada passo, não seguindo manuais de boa conduta, não pode mesmo se pautar pela lógica e pela significação transparente"

"Rilke (Rainer Maria Rilke) não separa poesia e vida mas, ao contrário, vê a poesia como o resultado de uma atitude existencial particular, aquela que se pauta não pelo alinhamento a grupos ou tendências literárias, mas pela absoluta solidão"

"Em seu refúgio, Hilda (Hilda Hilst) vive como uma náufraga, escrevendo uma literatura à deriva, que ronda e ronda em torno de um enigma que, ela sabe de antemão, não decifrará"

"A literatura só chega a ser literatura se desiste do estável - o que, no campo pessoal, significa também desistir das boas vendas, do sucesso rápido e dos aplausos de ocasião. O escritor avança (seja em que direção for, seja como desejar) quando se desapega das leituras lineares do mundo"

"Tanto a realidade como a fantasia expressam-se em palavras. Sem elas, não existem"

"(...) escreve em busca de uma resposta, mas permanece na pergunta, já que os grandes livros não fornecem soluções, mas, ao contrário, as destroem"

"Função da literatura: descortinar novas maneiras de ver o mundo"

"A ficção não põe em dúvida a verdade, ao contrário, realça seu caráter complexo; não descarta a verdade objetiva, ao contrário, enfatiza sua turbulência. Ela nãop deseja explicar, ou fixar nada; não se interessa por balanços e conclusões. Aposta, apenas, na verdade do singular. Verdade que, a cada vez, é outra verdade" 

*José Castello in "As feridas de um leitor". Ed. Bertrand Brasil. RJ. 2012.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Uma arqueologia das lembranças*


A gente até que tenta
Distorce, retorce
De novo tenta
Inventa, inocenta
Engavetar o tempo
Passar a chave
Passar a tranca...
Memórias
Lembranças
Atravessam paredes!
A gente até que tenta
Um novo disfarce
Inventa outra cena
Acena pras sombras
Pras sobras
Cava sepulturas
E acaba-se
Arqueólogo
Das lembranças
Da memória
E se acaba
Antropólogo
De penadas almas
Nostálgicas!

*José Mayer
Filósofo. Poeta. Livreiro. Especialista em Filosofia Clínica.
Porto Alegre/RS