sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Percebi que é inútil falar aos outros sobre coisas que não sabem. Quem não compreende a injúria que inflige a seus semelhantes falando de coisas que ignoram é um ingênuo. Perdoa-se um tal descuido só ao prosador, ao jornalista, ao poeta. Compreendi que uma ideia nova, isto é, um aspecto inusitado das coisas só se afirma pelos fatos. Os fatos abandonados nem por isso desaparecem; um belo dia ressurgem, revelados por alguém que compreende seu significado" 

"O que se é (...) só pode ser expresso através de um mito. Este último é mais individual e exprime a vida mais exatamente do que o faz a ciência, que trabalha com noções médias, genéricas demais para poder dar uma ideia justa da riqueza múltipla e subjetiva de uma vida individual"

"Em muitos casos psiquiátricos, o doente tem uma história que não é contada e que, em geral, ninguém conhece. Para mim, a verdadeira terapia só começa depois de examinada a história pessoal"

"(...) Foi um sucesso inesperado pois não imaginara que nossa leitura da Bíblia pudesse ter um efeito terapêutico"

"Cada caso exige uma terapia diferente. Quando um médico me diz que 'obedece' estritamente a este ou àquele 'método', duvido de seus resultados terapêuticos"

"(...) sempre constatei que os leigos que se ocuparam de psicoterapia durante anos, e que passaram, eles próprios, por uma análise, têm conhecimentos e eficácia. Por outro lado, raros médicos praticam a psicoterapia. A profissão exige uma formação muito longa e profunda e uma cultura geral que pouquíssimos possuem"

"(...) o que é principal, tinha o fogo sagrado"

"Era vital e necessário levar uma vida ordenada e racional como contrapeso à singularidade do meu mundo interior"

"Nietzsche perdeu o solo debaixo dos pés porque nada mais possuía senão o mundo interior de seus pensamentos - mundo que o possuiu muito mais do que Nietzsche a ele"

*Carl Gustav Jung in "Memórias, sonhos, reflexões". Ed. Nova Fronteira. 2006. RJ. 

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

A brisa e o poema*


Receba este poema
Não faz mal
Que eu não veja
Não faz mal
Que eu não seja
É para que o mundo
Te veja mais bonita.

Só ria, neste dia
Voa, vai você
Eu fico
Com a brisa suave
Da saudade
Que me leva
Para onde moram
Os olhinhos teus.

Que seja
Receba este poema
Para fazermos um abrigo
Nos braços dos abraços
A janelinha por onde espio
O nascente e o poente
É uma espécie de melodia
Da minha poesia...!

*José Mayer
Filósofo. Poeta. Livreiro. Especialista em Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"(...) o interesse da vida onde sempre esteve foi nas diferenças"

"(...) a pintura não é mais do que literatura feita com pincéis. Espero que não esteja esquecido de que a humanidade começou a pintar muito antes de saber escrever"

"A literatura já existia antes de ter nascido"

"É bem verdade que na natureza nada se cria e nada se perde, tudo se aproveita"

"Entre o martelo e a bigorna somos um ferro em brasa que de tanto lhe baterem se apaga"

"Duvida-se, por exemplo, ainda que seja sempre de boa prudência duvidar da própria dúvida"

"Quem não sabe deve perguntar, ter essa humildade, e uma precaução tão elementar deveria tê-la sempre presente o revisor, tanto mais que nem sequer precisaria sair de sua casa, do escritório onde agora está trabalhando, pois não faltam aqui os livros que o elucidariam se tivesse tido a sageza e prudência de não acreditar cegamente naquilo que supõe saber, que daí é que vêm os enganos piores, não da ignorância"

"(...) se quisermos acreditar nos insuficientes olhos com que viemos ao mundo"

"Não é tão raro assim revelarem-se nos sonhos grandes mistérios"

"As palavras não podem ser levianamente transportadas de cá para lá e de lá para cá, cuidado (...)"

*José Saramago in "História do cerco de Lisboa". Ed. Folha de São Paulo/SP. 2003.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

O homem como objeto abstrato da ciência*


O positivismo não é criticado pelo valor que a ciência possui ou adquiriu na sociedade. O problema não é a ciência, que demonstra a cada dia seu valor a partir das suas conquistas e resultados. O problema da mentalidade positivista está postular o conhecimento científico como o único possível e aplicável a todos os âmbitos da realidade, inclusive às relações humanas e sociais em geral.

O grande problema de reduzir todo o conhecimento ao científico está em despersonalizar o homem. Pois, para que o homem seja o centro de referência da investigação científica, ele precisa ser concebido de modo abstrato. Ou seja, o homem é despojado de suas determinações singulares, reduzindo-se a um objeto de investigação. Mais do que isso, ele é convertido a um sujeito formal e genérico e inserido em uma rede de relações abstratas e estruturas quantitativas.

Desse modo, a mesma ciência que tem como procedimentos metodológicos o trabalho com esquemas, mensuração, repetição, relações e regularidades, toma tudo o que é próprio e exclusivo do sujeito e o elimina ou deprecia uma vez que não possui importância para a pesquisa.

Um exemplo disso pode ser tomado da medicina. O médico não conhece todos os corpos humanos. Ele tem um conhecimento geral, no qual aprende a estrutura corporal humana por meio de um modelo universal. Quando encontra com um paciente concreto, o médico compara o corpo do paciente à estrutura corporal de um ser humano normal e abstrato que ele aprendeu. Na medida em que esse humano concreto não se enquadra na estrutura geral e regular, percebe que algo não está funcionando bem. Diante disso, o médico buscará consertar, curar, normalizar ou regularizar essa anomalia.

No caso de um procedimento médico, essa visão científica do ser humano é boa e eficaz. Todavia, essa perspectiva não deve ser aplicada a todas as questões humanas. Pois, algumas questões decisivas, próprias ou individuais, características da existência, encontram-se de modo singular em cada sujeito. 

*Prof. Dr. Miguel Angelo Caruzo
Filósofo. Educador. Escritor. Filósofo Clínico
Teresópolis/RJ

domingo, 10 de dezembro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*



"É com seu próprio deus que as pessoas são mais desonestas: não lhe é permitido pecar"

" O amor a um único ser é uma barbaridade: pois é praticado às expensas de todos os outros. Também o amor a Deus"

"O sábio como astrônomo - Enquanto você sentir as estrelas como 'algo acima', falta-lhe ainda o olhar do conhecimento'"

"A mulher aprende a odiar na medida em que desaprende a - enfeitiçar"

"Experiências terríveis fazem pensar se aquele que as vive não é algo terrível"

"Não existem fenômenos morais, apenas uma interpretação moral dos fenômenos"

"Na vingança e no amor, a mulher é mais bárbara que o homem"

"É o baixo ventre que impede o homem de considerar-se um deus"

"Quem combate monstruosidades deve cuidar para que não se torne um monstro. E se você olhar longamente para um abismo, o abismo também olha para dentro de você"

"O que se faz por amor sempre acontece além do bem e do mal"

*Friedrich Nietzsche in "Além do bem e do mal". Ed. Cia de Bolso. SP. 2005.

sábado, 9 de dezembro de 2017

O Movimento da Vida, o Livro*


É claro que o que move o livro é o acesso ao leitor, vice-versa, o leitor só faz o livro ter alguma importância se tiver o livro em mãos. Aos olhos, o pensamento movente e o que Bergson entoou: “O conhecimento que você me traz incompleto, eu o completarei”. Eis a questão: que tipo de livro, qualquer livro, qualquer texto, um romance, um ensaio, uma biografia, autoajuda, técnico, filosofia, qual mesmo?

O desconexo para muitos não precisa ser e nem assim deseja a unificação mas o livro é nexo dos desconexos, é texto que vai da vertigem da linguagem à compreensão das páginas. Eu digo que tenho minhas preferências, como leitor, como alguém que busca escolher a partir do que lê, do que gosta, mesmo que isso tenha sua complexidade, que não contemple o todo do meu gosto, porque o negócio do livro é o negócio, mas eu aprendi mesmo sobre a importância do livro foi com o negócio Vida, com as relações que tive até aqui... até o século XXI desbancar o século passado.

Nada de excepcional se o livro acabar, afinal de contas o dito pelo não dito não precisa da escritura para ser dito. Para clarear as ideais, aí sim, é como se a vida tivesse no sentido de dois trens que deslizam sobre os trilhos, a mesma velocidade, em vias paralelas, a sensação, é que para cada um dos trens, o que está sentado de um lado olha o outro, e se veem, sem movimento, como se estivessem parados, é assim, quando se está com o livro na mesma velocidade da vida. A vida parece que não passa, não sai do lugar, mas na realidade um desaparecerá antes que o outro possa perceber, tão rapidamente, que o outro só enxergará o que ficou na memória. Vestígios. 

“O mundo material, dizem, irá dissolver-se e o espírito afogar-se no fluxo torrencial das coisas. – Que se tranquilizem! A mudança, se consentirem em olhá-la diretamente, sem véu interposto, bem rapidamente lhes aparecerá como o que pode haver no mundo de mais substancial e de mais durável.”
                                                                              Henri Bergson

*Prof. Dr. Luis Antonio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Quem é o Filósofo Clínico e quem é o Partilhante na concepção de Hélio Strassburger***


Final:

Em relação aos estudos ficam claras as etapas teóricas e práticas a serem seguidas, como a especialização, o pré-estágio - etapa em que o estudante passeia por dentro de si mesmo, conhecendo-se melhor - e o estágio - quando o aprendiz atende, sob supervisão, seus partilhantes e usa desse momento para compartilhar dúvidas, inseguranças, além de se aprofundar nas leituras e práticas.

Mas, sem fechar a questão o autor nos coloca diante de uma profunda e complexa abordagem: o crescimento pessoal em direção ao ser filósofo clínico. Esta é uma etapa que não está prevista nas estruturas dos cursos de formação, e para ela não existe uma fórmula ou um trajeto pré-determinado a ser seguido. Porém, Strassburger, em outro texto de sua autoria, Ser Filósofo Clínico, 2007, vai mais adiante nessa questão, diz ele:

“Chama atenção um ingrediente, considerado como falha ou defeito por outras abordagens: as carências e fragilidades do terapeuta. No referencial metodológico da Filosofia Clínica, este componente pode ser aliado imprescindível ao ser cuidador! No exercício do papel existencial, este aspecto, quando bem elaborado, vincula-se poderosamente a uma excepcional manifestação de humanidade. Aptidão que anuncia a natureza das interseções e costuma acompanhar a pessoa bem depois da alta compartilhada. Pode significar força e dedicação incomuns a pluralidade do fenômeno humano.”

Strassburger nos apresenta uma versão romântica da humanidade do filósofo clínico e do partilhante enquanto caminhantes em busca de um mesmo fim. Mesmo depois da alta (decidida em conjunto) os dois, filósofo e partilhante, podem estar sempre em contato alicerçando ainda mais os resultados clínicos. E juntamente com Hélio, em Poéticas da Singularidade, podemos ainda sentir a magia do exercício clínico quando:

“colocar-se no lugar do outro, em perspectiva de ajuda, constitui elemento, essencial à natureza dos cuidados. (...) Uma permuta de papéis existenciais, elabora ingredientes imprescindíveis ao existir desses provisórios acordos.” (Strassburger, 2007)

Logo, as concepções de filósofo clínico e partilhante propostas por Strassburger são tão plásticas quanto à própria metodologia da filosofia clínica, e são também definidas  pela qualidade da interseção entre ambos no caminhar do processo terapêutico e no desvelar de cada singularidade em devir.

Considerações finais:

No decorrer deste pequeno trabalho pudemos nos informar de algumas conceituações sobre quem é o filósofo clínico e o partilhante, mais especificamente na concepção Strassburgeriana. Alguns autores, em meu entendimento, simplificam essas conceituações e nos trazem a ideia de filósofo clínico/terapeuta e partilhante/quem partilha suas vivencias com o clínico -, deixando de observar os meandros vivenciados por ambos durante a clínica. Hélio Strassburger vai além da definição da identidade teórica de ambos, adentrando pelas vias da interseção que se estabelecem durante a terapia e o exercício dos papéis existenciais. Mais do que dar definições o autor nos leva a um passeio sobre a construção do Ser terapeuta, que segundo ele nunca chega ao fim.

Um dos pressupostos da filosofia clínica vem do filósofo Protágoras de Abdera (480-410 Ac.), que diz: “O homem é a medida de todas as coisas, das coisas que são, enquanto são, das coisas que não são, enquanto não são.” Logo as conceituações sobre filosofo clínico e partilhante também partem da singularidade de cada autor e cada clínico, que é a medida das coisas, seja em processo terapêutico, seja na construção teórica da filosofia clínica. O que nos chama a atenção em Strassburger é que a sua conceituação, além de obra aberta, vem da prática clínica, ou seja, faz o caminho inverso na construção dos conceitos.

Porém, cabe aqui ressaltar que cada filósofo clínico deve estar ciente de seu estilo clínico, independente de concepções ou conceituações, pois este também é para si, como profissional, a medida de todas as coisas.

*Marta Claus
**Revista Partilhas
 Instituto Mineiro de Filosofia Clínica Ano IV, n. 4, nov. 2017

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Quem é o Filósofo Clínico e quem é o Partilhante na concepção de Hélio Strassburger***


Parte III

Outro ponto que merece destaque na obra de Strassburger, e em sua concepção de quem é o filósofo clínico, é a “interseção”. Além de empatia, amizade e confiança entre filósofo e partilhante, o autor nos apresenta a mesma com algo mágico e dedica, dentro da obra, um capítulo inteiro a esta questão tão importante no processo terapêutico. Já no início de sua narrativa nos adverte:

“Existe um ponto de frágil equilíbrio nas relações entre as pessoas. Alianças para aproximação com o extraordinário da condição humana. Pelas rotas de  acesso, a representação de cada um, vastos e inexplorados continentes podem se mostrar.” (Strassburger, 2007)

Aqui o autor nos coloca frente à natureza da interseção que deve ser sempre alvo de cuidado do cuidador, pois qualquer agendamento indevido pode abalar a qualidade da interseção. Por isso Hélio a trata como algo inebriante, algo que envolve numa só nuvem de clareza tanto o filósofo quanto o partilhante. Essa é a mescla entre filósofo e partilhante a que se refere Strassburger: “Pela via da interseção, peculiares experimentações se oferecem ao papel existencial do ser terapeuta. Fenômenos a constituírem mensagens em busca de tradução.” (p.13) Porém, não é sem risco que o filósofo percorre o mundo do outro. Hélio adverte que se o clínico não estiver de posse de sua estruturação como pessoa e como clínico, esse possível desconhecimento pode representar um entrave no processo terapêutico, prejudicando a reciprocidade em clínica. Portanto, para o autor, além do conhecimento de sua própria estrutura é requisito fundamental ao clínico a suspensão dos juízos da pessoa do filósofo. Afirma também que os riscos que estão envolvidos na relação filósofo clínico/partilhante são partes constituintes do ser terapeuta.

Outro ponto tratado pelo autor em relação à sua concepção sobre o filósofo clínico é com respeito à formação. Inicialmente ele está de acordo com as clássicas concepções apresentadas anteriormente que são decorrentes da estrutura curricular. Para ser filósofo clínico é necessário ter curso superior em filosofia em faculdade reconhecida pelo MEC, cursar a especialização e em seguida a formação, trazendo consigo as vivências e as pesquisas, além de passar pela clínica didática e estágio supervisionado.

Porém, de acordo com Strassburger: “Como novo paradigma, a Filosofia Clínica experiencia perplexidades inevitáveis no contexto da história das terapias. Propõe ruptura e mudança ao apontar novos rumos. Um descortinar de horizontes, até então tidos como inexistentes.” (p.96)

A fala do autor, sobre as questões paradigmáticas, nos remete ao pensamento de Thomas Kuhn quando em sua obra “A estrutura das revoluções científicas” (1962) afirma que a vantagem de um paradigma é que ele concentra em si a pesquisa. Sem um paradigma, cientistas e estudiosos acumulam pilhas diferentes de dados quase ao acaso e ficam todos ocupados demais em dar um sentido ao caos e derrotar as teorias concorrentes para progredir de forma consistente. O problema, com os paradigmas de acordo com Kuhn, é que eles tendem a se tornarem fechados e rígidos. Novos avanços tornam-se cada vez mais acessíveis apenas a quem os professa. Os cientistas que têm alguma coisa a  oferecer, mas rejeitam o paradigma, são frequentemente descartados e tidos como "excêntricos". Caminhos de pesquisa potencialmente frutíferos são bloqueados porque não partem de premissas aceitas. Embora possibilite descobertas, todo paradigma, é também um tipo de cegueira: ele nos dispõe a enxergar algumas coisas e a ignorar inteiramente outras.

Já para Strassburger:

“Os pesquisadores em busca de fundamentações, teórica e prática, para estudos em nova abordagem, deverão incluir, necessariamente, na sua bagagem de investigações, o convívio diário com a defesa intransigente com a ciência normal. (...)

As ideias e abordagens recém-descobertas não buscam justificar suas antecedentes, apresentam-se como reflexão crítica e desconstrução. Oferecem opções ao apontar caminhos de contramão ou mão nenhuma. Propondo superação, revelam possibilidades até então desmerecidas como contradição insuperável. Uma fenomenologia em desdobramentos de originalidade descortina-se ao olhar do descobridor.” (p.97)

Hélio não descarta, pelo contrário, julga necessário para o estudante o diálogo com antigos paradigmas para que assim se possa compreender e aceitar o novo. Contudo, para o autor os estudos devem propiciar escolhas aos estudantes e não conceitos e dogmas prontos e acabados. Também acredita que a vivência da teoria no mundo real (na prática) é fundamental para a construção do ser terapeuta. Podemos entender que para Strassburger não há espaço apenas para a prática ou para a teoria na formação do filósofo clínico, há que se estabelecer “uma relação afinada entre fundamentação teórica e fundamentação prática. A partir de onde as expressividades podem elaborar-se ao papel existencial do filósofo clínico.” (p.98)

Há também uma postura muito clara do autor em relação à partilha entre a formação do filósofo clínico e a composição de teses de doutorado ou dissertações de mestrado, ou mesmo qualquer outro estudo teórico que venha a atrasar ou dificultar o processo de formação do filósofo clínico. O autor se mostra contra essa partilha e deixa-nos bem claro que a filosofia clínica costuma “ser uma companheira ciumenta” e que exige atenção em tempo integral. Claro está que essa postura é vinda da singularidade de Hélio e muitos podem ou não concordar com ela. No entanto, convém ressaltar que para o autor a formação do filósofo clínico inicia-se antes da especialização, visto que este já deve estar disposto a enfrentar a caminhada sem pular etapas, e ainda prossegui-la depois da parte teórica.

 “Prosseguindo num contexto de formação continuada, os grupos de estudo se mostram eficazes. As publicações e demais espaços de interação e diálogo compõe um conjunto importante para melhorar ações clínicas”. (p.98)

(...)

*Marta Claus
**Revista Partilhas
 Instituto Mineiro de Filosofia Clínica Ano IV, n. 4, nov. 2017

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Quem é o Filósofo Clínico e quem é o Partilhante na concepção de Hélio Strassburger***


Parte II

(...)

Contudo, Hélio Strassburger, ícone de grande significação na construção da Filosofia Clínica como atividade terapêutica e não apenas como filosofia teórica, nos apresenta em suas obras reflexões mais profundas e complexas, de quem é o filósofo clínico e quem é o partilhante, advindas da prática clínica e que veremos a seguir.

Vejamos o que nos diz Strassburger em sua obra Filosofia Clínica: a arte de encantar a vida, (2005):

“...Ser terapeuta é uma arte, através da qual podem se desenvolver raridades e talentos, os quais, impregnados de humanidade, vão constituindo a pessoa em seu melhor lugar no mundo. As crises e transformações pessoais por onde passa, na direção de um viver melhor, lhe confere uma legitimidade singular, não no sentido de ter respostas prontas, mas de exercitar a plasticidade na direção do outro, experienciando em sua alma, aspectos e desdobramentos, cujos reflexos podemos alcançar pela via da relação clínica, através da compreensão e do entendimento das circunstâncias do compartilhar.”

Já nesta primeira reflexão podemos acompanhar que no pensamento do autor, o filósofo clínico é também alguém em construção, em devir e não apenas um amigo, um profissional ou um estudante. No ato de compartilhar, de trilhar o caminho com o outro, o filósofo clínico se dispõe não só a entender, mas também a acolher as questões de seu partilhante, não apenas pelo ouvir, condição esta fundamental ao clínico, mas também pelo vivenciar junto, num se transportar ao mundo do outro, o que, em Filosofia Clínica, denominamos de recíproca de inversão.

“(...) Por estes desdobramentos existenciais compartilhados, ajudamos e somos ajudados, pois se é verdade que possuímos uma metodologia que nos auxilia nestas abordagens e interações, ainda temos o privilégio da nossa humanidade, o melhor referencial possível ao exercício desta atividade que pressupõe coração e mente, sangue, suor, lágrimas, alegrias e tudo mais que possa constituir-se por estes indeterminados universos existenciais, à procura de um lugar onde possa viver seus instantes de vida.(Strassburger, 2005 p 7)

A forma da composição narrativa usada pelo autor, na construção de seu trabalho Filosofia Clínica: Poéticas da Singularidade (2007) merece destaque, e por isso foi a obra base para esta parte do trabalho.

A “poesia”, a delicadeza de sua linguagem, surge como elemento fundamental para que o leitor se envolva na leitura e seja tomado por ela. Desta forma Hélio nos leva ao universo da recíproca de inversão, e entramos em seu mundo e vivenciamos, nele e com ele, os desdobramentos de sua atuação em consultório. Conseguimos também perceber que filósofo clínico e partilhante, para ele, são mais que definições ou concepções, são modos singulares de existir e estar no mundo. Ser filósofo clínico, para Strassburger é algo especial.

O autor lança mão do termo “poética”, para se referir ao gênero humano, no sentido mais original da palavra, que entre os gregos clássicos (poética=poiesis) era usado para designar criação, fabricação ou produção de sentidos e, era aplicado à poesia e a outras artes, como por exemplo, a escrita. Na obra de Strassburger podemos entender que as “poéticas”, são para designar a produção de sentidos das singularidades com as quais o autor trava seu diálogo terapêutico. Termo muito bem colocado, pois cada Ser em sua unicidade carreia em si a “poética” de sua existência.

Hélio Strassburger apresenta além de suas concepções conceituais a respeito de quem é quem na clínica filosófica, aborda também a singularidade do filósofo e sua forma de atuar. O diálogo é compartilhado (filósofo/partilhante), e travado a partir de suas vivencias como clínico e como ser humano em construção. Porém, não sem deixar claro que a mescla (filósofo/partilhante) deve ser uma opção do filósofo, que deve dominar a técnica e os procedimentos metodológicos. O autor também nos coloca frente às limitações da clínica filosófica, nem sempre terreno sólido, seguro ou fértil.

A sutileza do terreno da clínica filosófica deve sempre ter a atenção do filósofo, pois qualquer procedimento afoito ou sem planejamento pode causar tremores e abalos, fragilizando mais ainda o terreno, ou mesmo desabando a estrutura em processo.

(...)

*Marta Claus
** Revista Partilhas
 Instituto Mineiro de Filosofia Clínica Ano IV, n. 4, nov. 2017

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Quem é o Filósofo Clínico e quem é o Partilhante na concepção de Hélio Strassburger*


Parte I

Entre as reflexões, conceituações e concepções sobre quem é o filósofo clínico e quem é o partilhante podemos citar, antes de qualquer outra, a do sistematizador da Filosofia Clínica, Lúcio Packter. Para ele, há não apenas a definição de quem é o filósofo clínico, mas sua possível identidade:

“O filósofo clínico é inicialmente o estudante de filosofia disposto a compartilhar um caminho incerto com outras pessoas, a atuar filosoficamente em cada endereço desse caminho tal, pois é em cada endereço que sua identidade se modela. Partilhando um período da existência de outro ser, sob a responsabilidade que o nomeou filósofo, sua identidade reside em sua posição dentro da situação vivenciada.” (PACKTER, 1997)

Ao prestar mais esclarecimentos sobre a sua concepção da identidade do filósofo clínico Packter acrescenta-lhe três características básicas: um amigo que lança mão de seus conhecimentos filosóficos com o objetivo de ajudar na terapia; um pesquisador das filosofias terapêuticas; e ainda como “um partilhante emprestando as teorias filosóficas a pessoas em suas especificidades” (Packter, 1997). Neste último aspecto podemos perceber que o filósofo clínico também sua parcela de partilhante. Deve, então, ele mesmo estar disposto a partilhar seus conhecimentos.

Em relação exclusivamente ao partilhante Packter diz ser àquele que procura o filósofo para “partilhar” com ele suas vivências. Mas afirma, porém que: “a relação filósofo/partilhante é uma relação essencialmente de amizade. Cabe ao filósofo ter os cuidados de somente aceitar como partilhante alguém que em sua existência ocuparia de certo modo, um tal lugar, reservado à amizade.” (Packter p.5). Seria necessário aqui, para aclarar o que Packter entende por amizade, um enraizamento de termo, já que o conceito de amizade pode ter várias definições e para cada pessoa pode ter significação diferente, além de também se levar em conta o peso subjetivo do conceito e sua significação na malha intelectiva de cada filósofo clínico. Por isso fica-nos a interrogação: o que é amizade para Packter? Além disso, é necessária a amizade nas relações profissionais?

Esta é uma questão aberta, pois há os que defendem a relação de amizade e os que podem entender que, ser filósofo clínico é exercer um papel existencial e, por isso, não há que se ter uma relação de amizade. A filósofa clínica Monica Aiub nos apresenta uma concepção com o olhar voltado ao partilhante.

Vejamos:

“...o filósofo clínico é aquele com quem a pessoa partilha sua vida, suas questões, é um profissional apto a pensar junto com a pessoa, auxiliando-a a refletir sobre si mesma e sobre o mundo que a rodeia, levantando, com ela, opções, outras possibilidades para lidar com suas questões cotidianas.” (AIUB, 2004)

Em sua concepção Aiub não faz referência a amizade. Ou seja, o filósofo clínico, diferentemente da concepção Packteriana, não precisa estabelecer necessariamente uma relação de amizade com o partilhante. De partilha sim, porém Aiub nada refere à relação essencialmente de amizade. Logo, o olhar de Mônica sobre quem é quem na clínica filosófica, é colocado pelo ponto de vista da pessoa que procura o profissional com quem deseja partilhar suas questões existenciais. Ou seja, o filósofo clínico é quem ajuda a pessoa que o procura. A filósofa também não faz referência sobre o filósofo partilhar algo de si, como pessoa singular, somente aos seus conhecimentos metodológicos.

Já para Margarida Nichele Paulo (1999), filósofo clínico e partilhante não se distinguem propriamente um para o outro, em clinica, pois caminham juntos, e dialogam com o intuito de que o partilhante encontre em si mesmo o que se mantinha velado.

Esclarece ainda que:

“O filósofo clínico é um eterno estudante, ele caminha com seu cliente através do diálogo em uma direção que, a priori, ele não sabe onde irá chegar. Muitas vezes é uma reconstrução da história de vida do cliente. Muitas vezes, o simples fato de ordenar a história é suficiente para que ele viva melhor.”

A concepção de Paulo nos aponta para um profissional que deve cuidar sempre da sua formação, porém sem se esquecer da prática e de um diálogo ordenado durante o  processo clínico. Paulo nada diz sobre relações de amizade ou o contrário, mas sim de uma relação de constante aprendizado de ambas as partes objetivando a busca existencial do partilhante.

As definições apresentadas até aqui podem ser consideradas como as concepções mais clássicas de quem é o filósofo clínico e quem é o partilhante. 

(...)

*Marta Claus
**Revista Partilhas
 Instituto Mineiro de Filosofia Clínica Ano IV, n. 4, nov. 2017

domingo, 3 de dezembro de 2017

Prefácio*


Assim é que elas foram feitas (todas as coisas) —
sem nome.
Depois é que veio a harpa e a fêmea em pé.
Insetos errados de cor caíam no mar.
A voz se estendeu na direção da boca.
Caranguejos apertavam mangues.
Vendo que havia na terra
Dependimentos demais
E tarefas muitas —
Os homens começaram a roer unhas.
Ficou certo pois não
Que as moscas iriam iluminar
O silêncio das coisas anônimas.
Porém, vendo o Homem
Que as moscas não davam conta de iluminar o
Silêncio das coisas anônimas —
Passaram essa tarefa para os poetas.

*Manoel de Barros

sábado, 2 de dezembro de 2017

Filosofia Clínica é Método*


Hans-Georg Gadamer, filósofo alemão (1900-2002), em sua obra “Verdade e Método” nos aponta um marco para a procura da verdade e como o método é determinante nessa busca, aludindo que a hermenêutica* não se reduz a uma ciência, mas é uma condição da existência, i. é, a compreensão e a interpretação do mundo fazem parte da experiência humana. Aí se insere a filosofia: não filosofamos porque temos posse da verdade, mas justamente porque ela nos falta.

Nesse livro, o autor defende a tese de que a consciência é modelada histórica e culturalmente e que o sujeito é parte do processo efetivo da história, inserido numa cultura e num tempo específicos. Tendo a história como “pano de fundo” e como o “grande palco” da ação humana, o sujeito é parte efetiva dela.

A essência da história não consiste na investigação do passado, e sim na mediação do pensamento com a vida atual. A investigação se dá no presente, influenciada pelas circunstâncias da atualidade. Considerando isso é que o sujeito faz a leitura e interpretação de um texto, de uma obra de arte, da vida, na busca pela verdade.

Não dá para fazer uma distinção nítida entre passado e presente. Há uma fusão de horizontes: passado/presente/tradição. Daí se forma a compreensão, que só se torna possível através da linguagem.

Devemos atentar, porém, que toda linguagem é finita, i. é, as palavras não dão conta de abarcar toda a realidade, embora procuremos dar a elas um sentido de infinitude. E isso só é possível num contexto dialógico, onde o conhecimento é adquirido através da conversação como exercício de entendimento mútuo.

Bem, considerando as proposições acima, que são também releitura e interpretação da obra de Gadamer, passemos a pensar em método. Como o título da obra é “Verdade e Método”, podemos dizer que para ele só se chega à verdade através de um método? Assim, é possível afirmar que “verdade é método”?

A palavra método é formada por dois termos de origem grega, “metá” e “odós”, o primeiro significando “para lá, depois” e o segundo “maneira”, “modo”. Método é, então, “um modo de fazer algo”, “uma maneira de chegar lá, ao que vem depois”, “um caminho a ser aberto”. E a verdade também é um caminho que se constrói.

Nesse sentido, a Filosofia Clínica – FC, enquanto clínica filosófico-existencial, é um método; surgiu tendo em mente essa função terapêutica, que é sua principal razão de ser. Na sua reflexão e prática clínicas, vai construindo e elaborando novos métodos de abordagem, sempre de acordo com as realidades e circunstâncias nas quais está inserida.

A FC tem seu modo próprio de conceber e praticar filosofias. Assim como são várias as filosofias, são várias as filosofias clínicas. Porque trabalha com singularidades, para cada uma elabora processos clínicos específicos, trilhando com os partilhantes caminhos possíveis na construção das verdades próprias a cada um, sempre tendo como referência as historicidades que, como diria Gadamer, são os “grandes palcos” que darão referências aos Filósofos Clínicos para entender as singularidades e, aos partilhantes, as condições de reinterpretar e ressignificar suas existências.

Poderia-se dizer que fizemos aqui uma “redução” do pensamento de Gadamer, adaptando-o à FC. Mas se filosofar é não apenas interpretar e reproduzir as filosofias já existentes e consagradas, por que não nos embrenharmos nesse fascinante mundo do pensamento para recriar e criar novos conhecimentos , novas formas de pensar, condizentes com as realidades de cada pessoa, de cada grupo social, de cada sociedade enfim? Afinal, não temos posse das verdades. Por isso filosofamos.

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*Hermes, na mitologia grega, é o mensageiro dos deuses, aquele que decifra as mensagens aos destinatários. Daí deriva o termo hermenêutikos: hermeneo = eu decifro; teckhné = arte; tikos = relacionado a; daí que hermenêutica é a ciência, a arte de interpretação de textos ou de obras artísticas.

*Paulo Roberto Grandisolli
Filosofo Clínico no Recanto da Filosofia Clínica
São Paulo/SP

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"A arte talvez seja uma das mais poderosas formas de o homem arranhar certos mistérios da transcendência"

"A arte está sempre nos oferecendo inesperadas possibilidades, potenciais saídas surpreendentes e alternativas para os labirintos em que nos encerramos"

"(...) é próprio da criação artística se constituir na expressão de uma individualidade, de uma subjetividade - muitas vezes, daquilo que é único, incomum, de uma exceção. E a mídia se orgulha, em sua racionalidade, de querer ser objetiva, mediana, comum, global - tanto numa linguagem média, acessível a todos e imediata, quanto nos temas abordados e nos pontos de vista com que eles são tratados"

"(...) a mídia tende a uma homogeneização crescente e redutora enquanto o caminho da arte valoriza o original, o diferente, o heterogêneo, o outro"

"O estereótipo injeta preconceito nos corações e mentes. E poucas áreas culturais são tão cheias de estereótipo quanto o que é transmitido pela mídia"

"Toda colonização é uma dominação, que se transmite e se mantém por meio da uniformização. Daí a desconfiança que os artistas criadores sentem e tantas vezes manifestam em relação à industria cultural homogeneizante e a seus mecanismos de uniformatação e padronização"

"O melhor antídoto contra a inoculação passiva de preconceitos e da ideologia alheia é a recusa do estereótipo e a busca do protótipo -aquele texto novo, prenhe de possibilidades insuspeitadas e das surpresas (linguísticas, estilísticas e de pensamento) que caracterizam a boa qualidade literária"

"(...) leitura de literatura é um passeio, não é uma expedição comercial interessada em obter vantagens, cuja importância possa ser medida em termos utilitários para o consumo. Não é um ato predador, é um momento de prazer"

"Leandro Konder diz assim: 'Por meio da leitura os seres humanos podem se encontrar, podem assimilar algo da experiência dos outros. Minha experiência pessoal me ensina que jamais aprenderei a ler tão bem quanto necessitaria. O aprendizado da leitura não cessa jamais (...) Quem lê poesia, romances, peças de teatro, ensaios, crônicas, de fato está lendo a vida. Aprender a ler, então, é como aprender a viver: não termina nunca" 

*Ana Maria Machado in "Balaio". Ed. Nova Fronteira. RJ. 2007.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Uma mitologia das aparências*


A notícia mais comentada no Brasil nesta segunda-feira foi um erro de goleiro num jogo de futebol.

Sintoma da mais grave doença do espírito brasileiro: a ausência de desejo de compreender qualquer coisa que não seja vistosa aparência.

Nossa filosofia profunda tornou-se pirrônica desde o fim do século XIX. Como os pirrônicos, recusamo-nos a procurar qualquer verdade além do que o mundo espetacular da mídia nos oferece, pois consideramos que nada é, no fundo, verdadeiramente digno, nobre ou real. Assim, tomamos a liberdade de viver como todos, sem nenhuma problematização, resolvendo tudo com "jeitinho", o que é exatamente o que faziam os pirrônicos no mundo helênico.

Será essa recusa de fundamento uma consequência do positivismo de nossas classes militares e científicas do fim dos anos 1800? Será essa negação da metafísica um resultado do antiintelectualismo dos românticos franceses que influenciaram os nossos escritores desde então?

Talvez nossa cabeça de vento tenha sido feita justamente por essas duas forças intelectuais "progressistas" do século XIX - o mundo do positivismo científico e do romantismo literário.

Pergunto-me se essas duas forças pirrônicas que estão na origem de nosso pensamento macunaímico não teriam sido catalisadas pelo teatral golpe fundador da República e pela resposta dialeticamente magnânima e covarde do imperador. Pergunto-me isso porque a partir desse evento crucial a política brasileira rompeu com todo o heroísmo, com todo o valor, com toda a ideia, adotando o pragmatismo pirrônico, o que naturalmente acabou por contaminar de pirronismo toda a vida nacional - não só na política, mas também na educação, na imprensa e, finalmente, nas nossas relações pessoais.

Só o que importa, desde então, é o que reluz no mundo mitológico das aparências. Nada que esteja escondido das luzes dos palcos tem valor; nada que não seja espetáculo tem a menor relevância para o espírito brasileiro.

A repercussão da falha do goleiro Muralha nos revela de onde viemos: dos movimentos pirrônicos de negação da profundidade metafísica. Ela revela também quem desejamos nos tornar: o país do futebol. Vencer um torneio de futebol - e nos imaginarmos por isso invejados por todos os outros povos - é o nosso mais caro e profundo projeto de nação. Para nossa imensa desgraça.

*Prof. Dr. Gustavo Bertoche
Filósofo. Escritor. Filósofo Clínico
Teresópolis/RJ

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"(...) o homem experimentado é sempre o mais radicalmente não dogmático, que, precisamente por ter feito tantas experiências e aprendido graças a tanta experiência, está particularmente capacitado para voltar a fazer experiências e delas aprender"

"(...) o homem compreensivo não sabe nem julga a partir de um simples estar postado frente ao outro de modo que não é afetado, mas a partir de uma pertença específica que o une com o outro, de modo que é afetado com ele e pensa com ele"

"(...) o horizonte do presente está num processo de constante formação, na medida em que estamos obrigados a põe à prova constantemente todos os nossos preconceitos"

"A essência da pergunta é a de abrir e manter abertas possibilidades"

"O verdadeiro objeto histórico não é um objeto mas é a unidade de um e de outro, uma relação na qual permanece tanto a realidade da história como a realidade do compreender histórico"

"Quando se ouve alguém ou quando se empreende uma leitura, não é necessário que se esqueçam todas as opiniões prévias sobre seu conteúdo e todas as opiniões próprias. O que se exige é simplesmente a abertura à opinião do outro ou à do texto"

"O mundo da vida se encontra num movimento de constante relativização da validez"

"(...) o ato da compreensão é a realização re-construtiva de uma produção"

"A compreensão é, pois, uma re-produção referida à produção original, um reconhecer do conhecido (Boeckh), uma pós-construção, que parte do momento vivo da concepção, da decisão germinal como o ponto de organização da composição"  

*Hans-Georg Gadamer in "Verdade e método - Traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica". Ed. Vozes. Petrópolis/RJ. 1997.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

A leitura e o amor impossível*


Eu sabia
O que mais ninguém sabia
Que os livros que ela lia
Ela não somente lia
Transformava-se nos personagens
De todos os livros que lia
Eu sabia, ela era ela
E era todos os outros que lia
E ela sorria e parecia
Que olhava para longe
Para um buraco sem fundo.
E aconteceu que houve
Um tempo muito distante
Um tempo bem lá para frente
Em que o tempo caducou
E se dizia por aí
Que ela havia caducado
Enfim achara o seu amor
Impossível..!!

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Poeta. Especialista em Filosofia Clínica.
Porto Alegre/RS