segunda-feira, 31 de julho de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Não nos banhamos duas vezes no mesmo rio, porque, já em sua profundidade, o ser humano tem o destino da água que corre"

"A imaginação inventa mais que coisas e dramas; inventa vida nova, inventa mente nova; abre olhos que têm novos tipos de visão. Verá se tiver 'visões'. Terá visões se se educar com devaneios antes de educar-se com experiências, se as experiências vierem depois como provas de seus devaneios"

"A vida real caminha melhor se lhe dermos suas justas férias de irrealidade"

"Um instante de sonho contém uma alma inteira"

"Os mitólogos amadores algumas vezes são úteis. Trabalham de boa fé na zona de primeira racionalização. Deixam pois inexplicado o que 'explicam', porquanto a razão não explica os sonhos. Também classificam e sistematizam um tanto depressa as fábulas"

"Os sonhos que viveram numa alma continuam a viver em suas obras"

"(...) uma valorização dos devaneios inconfessados, dos devaneios do sonhador que foge da sociedade, que pretende tomar o mundo como único companheiro. Por certo, essa solidão não é completa. O sonhador isolado guarda em particular valores oníricos ligados à linguagem; guarda a poesia própria da linguagem de sua raça. As palavras que ele aplica às coisas poetizam as coisas, valorizam-nas espiritualmente num sentido que não pode fugir completamente das tradições"

*Gaston Bachelard in "A Água e os sonhos". Ed. Martins Fontes. SP. 2002.

domingo, 30 de julho de 2017

Você fala como um livro*


Jogou o balde na cisterna
Girou a roldana de volta
E o balde voltou seco.
O firmamento escureceu
Veio um vento forte
Inevitável vento norte.
Sentou na terra seca
Da livraria lá fora
Pensativa olhou o céu.
Livraria é um para-raios
De atrair malucos
Você fala como um livro!

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Poeta. Especialista em Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

sábado, 29 de julho de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Rousseau escreveu: 'Sabeis que a verdade, seja qual for, muda de forma segundo a época e os lugares, e que se pode dizer em Paris o que, em dias mais felizes, não se poderia dizer em Genebra'" 

"Cada jogo de luz pode valorizar este ou aquele perfil às custas dos outros"

"(...) Essa historicidade não significa necessariamente relativismo, mas faz da inserção do leitor e do texto em seus horizontes históricos a condição da compreensão"

"(...) como não aplicar ao Rousseau dos 'Devaneios' a descrição de Narciso feita por Gaston Bachelard: 'Mas Narciso na fonte não está somente abandonado à contemplação de si mesmo. Sua própria imagem é o centro de um mundo. Com Narciso, para Narciso, é toda a floresta que se mira, todo o céu que vem tomar consciência de sua grandiosa imagem'"

"Ler Rousseau é, pois, ler em seu texto não somente uma teoria, mas a expressão de certo ritmo existencial, o destino excepcional de uma consciência singular"

"Se o olhar do 'espectador' se tornou cego para as evidências do coração inocente, a própria natureza torna-se invisível para todo olhar"

"A leitura deve ultrapassar a obra em direção ao silêncio que a precede e de onde extrai seu sentido mais profundo. Pois a experiência da ruptura é também a experiência que explica o próprio projeto de escrever: para Rousseau, afirma Starobinski, escrever torna-se necessário justamente com a experiência da impossibilidade da comunicação imediata"

"Rousseau no 'Persifleuer': '(...) Nada é tão diferente de mim quanto eu mesmo, é por isso que seria inútil tentar me difinir exceto pr essa variedade singular (...) Em resumo, um Proteu, um camaleâo,uma mulher são seres menos mutáveis do que eu'"

"Sobre Rousseau: (...) Ele é o urso que escolhe a solidão quando poderia viver em Paris; todas as suas escolhas, enfim, todo o estilo de sua existência cotidiana o designam como alguém que escapa à norma e se expõe às mais pérfidas interpretações"

*Bento Prado Jr. in "A retórica de Rousseau". Ed. Cosacnaify. SP. 2008. 

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Escrever para crianças*


Certa vez conversando com um escritor, Dr em Filosofia, ele me disse que tinha muita vontade de escrever para crianças, mas não tinha aptidão com a linguagem infantil. Desde esse dia passei a refletir sobre o que ele disse; seria realmente difícil escrever para crianças?

Passei então a pensar sobre a diferença entre a linguagem da criança e do adulto, e encontrei na criança um caminho fértil para a construção de ideias, de imaginações e de experiências a serem vividas. Hoje encontrei um menino de 5 anos brincando com dois bonecos, um do Batmam e outro era um monstro, então emocionada e realmente querendo saber perguntei o que os dois bonecos estavam fazendo, e o menino disse que eles estavam brigando; e eu interessada perguntei o motivo da briga.

O engraçado é que a minha emoção de entrar no imaginário daquela criança me fez entender que a linguagem de muitas crianças não apresentam prejuízos, nem muitos agendamentos existenciais, e tem um caminho sem muitas conclusões, elas navegam pelas emoções, pelas ideias, pelos sonhos, pelos desejos primários humanos e assim constrói-se a cada vivência, a cada descoberta.

Depois de mais de 20 anos como professora de crianças entre 03 anos à 70 anos de idade descubro a cada dia que escrever para crianças é se tornar uma, porém com a capacidade de ver longe o que a criança procura aqui bem perto.

*Sandra Sucupira
Filósofa. Educadora. Escritora. Filósofa Clínica
Teresina/PI

quinta-feira, 27 de julho de 2017

O livro sobre nada*


É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu queria ser lido pelas pedras.
As palavras me escondem sem cuidado.
Aonde eu não estou as palavras me acham.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus.
Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
Por pudor sou impuro.
O branco me corrompe.
Não gosto de palavra acostumada.
A minha diferença é sempre menos.
Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
Não preciso do fim para chegar.
Do lugar onde estou já fui embora.

*Manoel de Barros

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Notas sobre a relação da filosofia e da ciência com o passado*


A ciência pode ser vista a partir de uma perspectiva de evolução. Seu desenvolvimento se dá a partir do acúmulo de saberes a ponto de ser necessária apenas a pressuposição de alguns princípios para, assim, seguir com a pesquisa. Desse modo, a não ser por informação histórica, um cientista não precisa ler, por exemplo, as obras de Euclides, Copérnico e Newton para dar continuidade à sua pesquisa científica.

Mas, com a filosofia isso não é possível. O exercício do filosofar passa pela experiência daquele que filosofa, a ponto de ter que revisitar muitos de seus pressupostos antes de dar continuidade ao exercício filosófico. Essa atividade de lidar com a base da própria experiência de mundo nem sempre é fácil, tornando necessário o auxílio de bons mestres que, por sua vez, são profundos conhecedores desse caminho.

Assim sendo, o neófito das veredas da filosofia precisa revisitar – entre outros – aqueles que deram início ao que chamamos de filosofia, sobretudo seus grandes pilares: Platão e Aristóteles. São estes que ajudam o iniciante a compreender os primeiros passos da atividade filosófica. Em suma, enquanto para a ciência o passado é praticamente o ultrapassado, para a filosofia os pensadores do passado são tão ou, em alguns casos, até mais relevantes e pertinentes do que os da atualidade.

*Prof. Dr. Miguel Angelo Caruzo
Filósofo. Educador. Escritor. Filósofo Clínico.
Teresópolis/RJ

terça-feira, 25 de julho de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"(...) na proporção em que o matrimônio passou a ser considerado sagrado e indissolúvel, a Psiquiatria involuntária foi considerada indispensável, uma verdadeira benção; e na medida em que a discórdia conjugal e o divórcio são considerados escandalosos, a doença mental e seu tratamento compulsório serão considerados científicos"

"A loucura, conforme sugeri há algum tempo, é fabricada, num certo sentido, por alienistas. Em outras palavras, a Psiquiatria produz a esquizofrenia ou, mais precisamente, os psiquiatras criam esquizofrênicos"

"(...) os 'pacientes' recebem 'tratamentos' que não querem e o Estado paga aos psiquiatras para coagir, confinar e mutilar quimicamente os cidadãos recalcitrantes"

"A esquizofrenia é definida de modo tão vago que, na realidade, trata-se de um termo frequentemente aplicado a quase toda e qualquer espécie de comportamento reprovado pelo locutor"

"Antes de 1900, os psiquiatras acreditavam que a paralisia geral era devida à má hereditariedade, alcoolismo, fumo e masturbação"

"A esquizofrenia é um símbolo sagrado da Psiquiatria, da mesma forma que o Cristo crucificado é um símbolo sagrado do cristianismo"

"Lembrando Laing: 'O homem do futuro verá que aquilo a que chamamos 'esquizofrenia' foi uma ds formas em que, frequentemente através de pessoas comuns, a luz começou a penetrar através das brechas de nossas mentes excessivamente fechadas'"

*Thomas S. Szasz in "Esquizofrenia - o símbolo sagrado da psiquiatria". Ed. Zahar. RJ. 1978.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Ilusão*


“Ouvir meras fábulas talvez não seja o programa favorito de vocês – talvez queiram ouvir A VERDADE. Bom, se é isso que vocês querem, então é melhor procurarem outro lugar – mas juro pela minha vida que não posso dizer exatamente que lugar é esse.”  Paul K. Feyerabend

O momento em que começamos a pensar mais e mais sobre o mundo, sobre os mistérios que envolvem um mundo coerente e a incoerência que temos em vivenciá-lo. Todos vivem no mesmo barco, a nau do mundo é a mesma no plano teórico no que concerne ao corpo, na relação do corpo com o mundo.

Como proferiu Feyerabend em uma de suas últimas conferências, “Ademais, os cientistas, os senhores da guerra, os esfomeados e os abastados são todos seres humanos”. Existe uma ponte imaginária nesta minha perspectiva, pois, se estou a pensar em português (ironia da reflexão), é a busca cotidiana de conhecer a natureza do mundo.

Não há pretensão nisso, a pior arrogância e delimitar o pensamento em uma representação do pensamento apenas especializado. Quando nos deparamos, por exemplo, com a dor, quando ficamos dias e dias na insônia, quando a produção diária e a queima de energia é melhor que deitar, é quando penso: estamos num dilema, ou salvamos a razão, ou aprimoramos a vida.

Uma maneira básica de começar, quando se chega a meio século, é naturalmente intensificar o movimento, principalmente do corpo. Mesmo assim somos traídos por uma cultura racional instintiva da modernidade que é o consumo desenfreado. Em todas as áreas e partes misturamos o que é bom e o que é ruim, somos iludidos por nossas ações, mas muitas vezes, nos recuperamos diante do inesperado que sempre aparece, seja, no acordar cedo para ir mover-se na água, na quadra, nas ruas, no campo aberto etc.

Nem estou pensando em Descartes na sua moral em dizer que a realidade está objetivamente em suas causas. Pretérito, meu caro. A reflexão vem sim, distante, de uma melhor descrição coerente de tudo existe. Platão fazia, então, precisamos nos aprimorar sobre o que existe, sempre foi assim, acontece que hoje existem formas de ir por estes caminhos.

Uma alternativa, a circularidade de uma hermenêutica oriental, outros roteiros que possam envolver o corpo e a mente. Não sou adepto do experimentalismo por ser um homem do meu tempo. Adeptos ou não, o mundo bem que podia se conectar de forma mais harmoniosa, mas é tão difícil quando nem mesmo ainda temos a capacidade de recomeçar do nada e fazer as coisas todas num só dia. Depois, voltar a pensar sobre tudo, ou esquecer tudo para não perder o outro dia que está prestes a nos acordar.

*Prof. Dr. Luis Antonio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

domingo, 23 de julho de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Como se visse alguém beber água e descobrisse que tinha sede, sede profunda e velha. Talvez fosse apenas falta de vida: estava vivendo menos do que podia e imaginava que sua sede pedisse inundações."

"(...) encontro a maior serenidade na alucinação"

"Queria saber: depois que se é feliz o que acontece? O que vem depois? - repetiu a menina com obstinação"

"E havia um meio de ter as coisas sem que as coisas a possuíssem?"

"(...) para nascer as coisas precisam ter vida" 

"Já agora nem sabia se vira o céu por si mesma como quem vê o que existe ou se pensara em céu e conseguira inventá-lo"

"(...) a praça de pedra se perdeu entre os gritos com que os carroceiros imitavam os animais para falar com eles"

"(...) a vida que se leva por dentro não é a vida terrena"

"Toda a parte mais inatingível de minha alma e que não me pertence - é aquela que toca na minha  fronteira com o que já não é eu, e à qual me dou. Toda a minha ânsia tem sido esta proximidade inultrapassável e excessivamente próxima. Sou mais aquilo que em mim não é"

"Vivia de coincidências, vivia de linhas que incidiam e se cruzavam e, no cruzamento, formavam um leve e instantâneo ponto, tão leve e instantâneo que era mais feito de segredo"

*Clarice Lispector in "Clarice na cabeceira - Organização de José Castello". Ed. Rocco. RJ. 2011.  

sábado, 22 de julho de 2017

Conjugações existenciais*














Existe um lugar onde é possível reinventar-se em vida. Nesse refúgio intersubjetivo é crível desfazer e refazer as coisas, segredar vontades, qualificar ensaios existenciais, traduzir sonhos. Num contexto de significação flutuante, ampliam-se horizontes numa arte do encontro.

Em um espaço de acolhimento, cultivo, reciprocidade, as narrativas compartilhadas sugerem uma hermenêutica do estar junto. Atiça expressividades na integração das incompletudes. Em busca de fluência discursiva, ao instituir um novo território, aponta originais no ângulo fugaz do instante.

Algo mais acontece quando duas ou mais pessoas se encontram. Seu teor de abrigo é um farol na solidão dos exílios. Sua matéria-prima é a afinidade das palavras, por onde um extraordinário encontro se realiza. Com essa integração provisória da malha intelectiva, institui-se um chão para se ousar o não pensado, cogitado, tentado.

 Nessa reunião de vontades, acessada numa determinada sintonia, é possível transcender em direção ao outro. Em um empreendimento comum, emancipam-se os limites da singularidade, institui-se um diálogo com as lógicas da diferença. Na unidade provisória de um talvez, é possível localizar ilegibilidades. Ponto de partida a descrever vontades, traduzir representações.

Para essa exploração compartilhada reivindica-se, preliminarmente, uma disposição fenomenológica e a hermenêutica compreensiva. A partir da adequada leitura da estrutura de pensamento, é possível elucidar equivocidades discursivas, esboçar uma estética a cultivar afinidades. Mais que entendimento, propõe uma atitude de inclusão e partilha. Aqui se trata de conjugar como elaborar, prosperar. Reivindica-se o acesso aos possíveis e inacreditáveis eventos.

Nesse sentido, sua junção concede visibilidade aos tempos verbais desconsiderados. Seu teor de novidade, ao ser desenvolvimento interpessoal, qualifica processos de libertação criativa. As conjugações existenciais possuem fluidez nas pronúncias no viés da interseção. Com a desconstrução dos isolamentos, tendo como ponto de partida o texto silenciado, insinuam-se rituais de novidade. Neles um significado inédito se reapresenta na perspectiva dos encontros.

*Hélio Strassburger

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Onde anda você ?*


Às vezes escrevo para te lembrar
Por onde tu andas ,agora,
Minha pequena amada?
Seus passos por onde passam
Que não cruzam mais com os meus?
Minh'alma sabia desde sempre
Então te pintei na ponta
Da estrela da manhã
Pendurei teu nome
Na ponta da lua crescente.
Quando de longe te vi
Logo de saída percebi
Que em mim também pensavas
A harmonia da natureza
Perdeu com o fim do nosso amor.
Bateu mais forte meu coração
Meu corpo sentiu uma vertigem
Ah, teu canto, tua dança
Teus lábios se abrindo
Neste teu riso tão limpo.
Ah, traga-me de volta o teu abraço
Compramos uma charrete cheia de flores
Com dois cavalos alados brancos
E andamos pela Rua da Praia...

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Poeta. Especialista em Filosofia Clínica.
Porto Alegre/RS

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Do bom, belo e aparentemente justo*


Maria tanto amava que ardia..
Mas até o último suspiro negaria...
Era direita, a Maria.
Só que todo santo dia numa saída ela pensava
Bolava, rebolava, revirava.
Nem mais dormia, a Maria.
Ainda honesta,
enlouquecida, definhava..
(nada bom) 

Foi então que conheceu Teresa.
Era bem puta, a vadia.
(faria o que o Zé gostava
que era também o que queria)
(o duplamente bom) 

Maria deu ao Zé , de presente, a Teresa
E a si própria, deu João e deu ao João...
Zé ficou alegre de repente.
Cantarolava. Assobiava. Até sorria!
Trazia flor pra Maria.
Comprava carne de primeira.
Vestido novo de chitão...
Nem cogitava um João!!!
(mas era justo, justíssimo!)

Enquanto isso a Maria
Agradecida ( e direita )
Trabalhava à tarde
E à noite dormia.
Cansada e feliz
Com o seu Zé, a Teresa
E com João., a Maria!
(bonito, muito bonito, dona Maria!)

"Quem em prol da sua boa reputação, não se sacrificou já uma vez a si
próprio?" (Nietzche)

*Aila Magalhães

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Leitor anarquista da Filosofia Cristã*

       
“Quer dizer, no momento em que adentramos o espaço da memória, entramos no mundo.”**
Paul Auster

Gosto de ler os filósofos cristãos, principalmente os dos séculos XIX e alguns do XX. Assim, ao lê-los aprendo mais do que muita ironia vã da ignorância religiosa e fanática sobre Deus. Sou de fato um ser em movimento, mas o que nunca deixou-me impressionar é a latência reflexiva dos moralistas ao tratar da vida como se ela tivesse uma base sólida para todas os questionamentos. 

Escamotear a existência em nome de um ser superior. De fato, a vida é onde tudo se inicia e tudo se perde no fim. O acontecimento tem seu apogeu. Os observadores mais atentos, os desavisados e dispersos, porém atentos, a todos que param um pouco para apenas sentir e deixar o tempo passar ou ficar parado no ato de pensar. Éttienne Gilson escreveu:

O pânico que parece se apoderar dos apologistas sempre preocupados em não perder o último navio, é algo que lhes é natural, mas não deixa de ser inútil. Não há último navio. Da popa daquele no qual você embarcar, você verá outros três ou quatro se preparando para partir.***

Ou seja, prefiro a reflexão inteligente do que ardor de uma crença, de uma outra ordem de religião. Isso se aprende ao longo dos tempos. Quantos Tempos existe quando vive em uma só vida? Depende, não da crença, a meu ver, da capacidade que se tem de encarar a realidade sem temer que a ordem das coisas não gerida pelo fervor de uma crença, mas por circunstâncias que envolvem essa vida.

No caso dos exegetas, daqueles que dedicam sua vida a interpretar, a eles meu profundo respeito, mas nem com todos me sentaria para conversar, ouvi-los. Porque se tem algo que me deixa numa profunda dislexia é o tom professoral, é querer dar aula no mais alto grau da tonalidade e expressão teatral de um professor. Isso me tira do sério, então, prefiro conversar com os livros. 

O Éttinne Gilson é meu companheiro por excelência. Com ele aprendi a ler melhor textos filosóficos, a ouvir e, principalmente, recusar verdades e tons pseudo educadores de alguns seres monocórdios. No final da última página de um Gilson, acredito cada vez menos na luz duradoura de uma Verdade única.

*Prof. Dr. Luis Antonio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

** A Invenção da Solidão. Paul Auster. Companhia das Letras, 1999.
*** O Filósofo e a Teologia. Éttinne Gilson. Paulus, 2012.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"O excesso é simplesmente revelador de um estado de espírito latente"

"(...) existe uma interação entre a 'força vital própria' de um determinado indivíduo e as 'circunstâncias exteriores', ou seja, as determinações impostas pelo destino"

"(...) da relação entre a subjetividade individual e a importância do meio, de qualquer ordem que seja"

"Acrescentarei que o redobramento é a marca simbólicas do plural. Por isso, cada um torna-se um outro. Comunga com o outro e com a alteridade em geral"

"(...) nenhum problema é definitivamente resolvido, mas que encontramos, pontual e empiricamente, respostas aproximadas, pequenas verdades provisórias, postas em prática no cotidiano, sem que se acorde um estatuto universal, oralmente válido em todo lugar, em todo tempo, e para cada um"

"Há aqui uma antinomia de valores que merece ser pensada: a morosidade do instituído, a alegria do instituinte. Antinomia que se manifesta, cada vez mais, com toda clareza, em particular nas voracidades festivas, no culto ao corpo, na exacerbação da aparência, tudo, certamente, fundado sobre a saturação do projeto longínquo e a celebração de uma espécie de instante eterno"

"O excesso sobrevém como uma vibração que legitima e dá sentido à monotonia cotidiana. A transgressão e a anomia necessitam de limites, ainda que seja somente para serem ultrapassadas"

"O bárbaro já não se opõe ao civilizado, é um de seus componentes mais fecundos. Essa conjunção é, sem dúvida, a marca essencial da pós-modernidade"

*Michel Maffesoli in "O instante eterno - O retorno do trágico nas sociedades pós-modernas". Ed. Zouk. SP. 2003. 

quinta-feira, 13 de julho de 2017

A festa e o trem*


Peregrinando vou contemplando
Pássaros e flores
Lagos e caminhos
Cabelos brancos feito algodão
Peregrinando vou sentindo
Perfumes e sabores
Arrepios de tantas belezuras
Gente sem pressa sorrindo
Peregrinando vou admirando
O simples e o complexo
A luz e a sombra
As pinturas e a natureza
Porque é verão aqui em Stresa
O trem chega
O trem parte
E tudo se faz festa

*Dra. Rosângela Rossi
Psicoterapeuta. Escritora. Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

quarta-feira, 12 de julho de 2017

A serpente que nos seduz/conduz/traduz*


      Eva era uma mulher metódica e compulsiva, para ela as coisas deveriam ser pretas ou brancas, oito ou oitenta. Não havia meio termo. As pessoas eram solteiras ou casadas, amigos ou namorados. Ignorava situações como “ficante”, “peguete” ou “amizade colorida”, que seriam representadas pela cor cinza. Para ela, cinza era uma mistura de cores, uma situação indefinida, uma transição para o autêntico. Nada a ver. As situações da vida precisavam ter cor definida, rótulo e se possível, carimbo de autenticação. Preto ou branco, solteiro ou casado, amor ou nada.

      Conheceu Adão em uma festa, trocaram telefones, conversaram bastante durante três semanas, sentiram vontade de se ver mais uma vez e marcaram um encontro para a sexta feira seguinte. Gostaram tanto um do outro, que combinaram  sair de novo no sábado. No domingo, beijaram-se. Ao se despedir, no portão de casa, Eva perguntou se estavam namorando, pois para ela, amigos não se beijam. Preto era sinônimo de amigo e branco significava namorado.

     Adão, surpreso com a cobrança, argumentou que ainda estavam se conhecendo, já considerava Eva mais que uma amiga, porém menos que uma namorada. Era muito cedo para assumirem um namoro. Eva ficou confusa, pois não conhecia aquela cor, era um cinza muito escuro, quase preto. Perdeu até a vontade de beijar. Comunicou que diante do exposto, seriam apenas bons amigos virtuais, não trocariam mais carinhos e retornou para seu branco existencial.

        Pressionado, Adão assumiu o namoro, mas foi logo avisando que terças feiras jogava futebol com os amigos, quartas frequentava a maçonaria, quintas tinha plantão no hospital e sábados, cuidava da mãe, que era doente. Namorariam na segunda e na sexta feira à noite. Domingos iriam juntos à igreja e passariam a tarde juntos.

      Eva entendia que namoro significava quartas, sextas, sábados e domingos juntos. Além disso, tinha outro credo religioso. Mais uma vez, seu branco pretendido não tinha nada a ver com o preto de Adão, surgindo um cinza escuro, diferente do anterior, mas ainda muito longe da tonalidade pretendida. Perdeu um pouco do entusiasmo, mas decidiu experimentar esta forma rasa e descolorida de namoro.

      Em poucas semanas o namoro começou a ficar confuso demais para Eva, que cobrou a presença mais efetiva de Adão na relação. Este alegava que o importante era a qualidade dos encontros e não a frequência, mas para ela aquilo não era preto nem branco e preferiu terminar de vez, apagando aquela cor estranha de sua vida. Disse ainda que não seriam nem mais amigos, pois ela o desejava como namorado e não tinha mais condições de manter a amizade.

        Certo dia, na tela preta imaculada de seu computador, Eva recebe uma mensagem de Adão pedindo para se encontrarem. Recusou, mas disse que poderiam conversar por mensagens. Aquilo representava apenas uma manchinha cinza, muito clara em seu preto existencial.

       Logo as conversas esquentaram, foram clareando a tela de Eva, que pressionou mais uma vez Adão. Voltariam a namorar desde que ele largasse o futebol e a maçonaria. Ainda não era o branco desejado, mas Eva já respirava mais aliviada.

        Durou pouco tempo esta fase mais clara. Adão quis fazer sexo, Eva pretendia casar virgem e de branco. Acinzentou tudo. Sexo antes do casamento era uma nuvem cinza muito feia, uma tempestade sujando seu vestido branco. Terminaram o namoro, Eva queimou as fotos do casal, devolveu os livros que estavam em sua casa, e solicitou que ele nunca mais a procurasse. Quase o expulsou de casa. Demorou uns dias, o cinza foi sumindo, porém nunca mais o branco nem o preto de Eva foram os mesmos.

        Ainda tentaram mais algumas vezes transformar o preto no branco sonhado por Eva, mas ela não conseguia suportar os tons cinza da transição. Adão se esforçava, mas não sabia como fazer, não era pintor, tampouco mágico. Sua natureza acabava sempre escurecendo o branco sonhado por Eva, que com o tempo já era desbotado e sujo. Eva sonhava com o paraíso, mas estava longe disso.

        O tempo passou e um belo dia o destino aprontou. Uma serpente muito esperta, explicou a Eva que o branco e o preto, convencionalmente designados por cores, nada mais são que o resultado da presença ou ausência de luz, que em sentido figurado significa conhecimento, sabedoria, tranquilidade, amor.  Não eram cores autênticas. O branco é a luz pura, onde há uma mistura total das sete cores e, o preto, a ausência total de luz. 

       Além disso, a serpente explicou o conceito de Yin e Yang no taoísmo. Duas forças opostas que expõem a dualidade de tudo que existe no universo. Estes dois pólos arquetípicos são representados pelo branco e preto, claro e escuro, representando o inflexível e o dócil, o acima e o abaixo. No entanto, não existe simetria estática no diagrama. As cores estão em um constante movimento cíclico. Dentro do pólo branco, existe um pequeno ponto preto, e no polo negro, um pequeno ponto branco fazendo o contraste, e simbolizando a ideia de que, toda vez que uma das forças atinge seu extremo, manifesta dentro de si a semente de seu oposto.

     Complicou demais a cabeça de Eva. Preto e branco, que sempre foram seus limites para a vida, deixaram de ser referência e até mesmo cores.  O preto em que antes vivia, agora significava uma ausência de cor, de luz e de amor.  O branco que sonhara seria uma mistura e não a pureza imaginada?

      Estonteada, confusa, Eva perdeu o sono. Não sabia mais no que acreditar. Andou um tempo sem rumo, tropeçou, caiu na cama de Adão. Este a acolheu, envolveu em seus braços, manchou seu vestido existencial de vermelho. Eva entregou-se e nunca mais foi a mesma. Virou mulher, finalmente. Adão também nunca mais foi o mesmo, transformou-se em companheiro. Estão felizes. Às vezes é preciso fechar os olhos para clarear a visão e perder o rumo para encontrar o sentido.  Conduzidos pela serpente, Adão e Eva retornaram ao paraíso, um lugar onde todas as cores combinam e os preconceitos se calam.

*Ildo Meyer
Médico. Escritor. Palestrante. Mágico. Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS

terça-feira, 11 de julho de 2017

Convite*

Não sou a areia
onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.
Sou a orelha encostada na concha
da vida, sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou
mistério

A quatro mãos escrevemos este roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos
a sério.

*Lya Luft

segunda-feira, 10 de julho de 2017

De onde vem isto que é ?*


A gente acaba falando de uma coisa
Para falar de uma outra bem diferente.
O que é isto
Que nos faz humanos
E nos diferencia
Dos outros animais?
O que é isto
Que nos torna sublimes
E nos eleva na prática
Do bem-querer e do amor?
E o que é esta outra coisa
Que nos joga e rebaixa
Causando ao nosso redor
Malevolência e desamor?
Duas forças nos habitam:
Eros e Thanatos
Amor e Ódio
Laços de Vida e de Morte
Luzes e Sombras.
Sabe aqueles círculos
Que se formam ao redor
De uma pedra que se joga
N'água de um lago...??
O que é isto que dói
Na gente, por vezes,
E não precisaria doer?

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Poeta. Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS

domingo, 9 de julho de 2017

Retrato*


Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?

*Cecília Meireles