quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Via Láctea*


 “Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.”

*Olavo Bilac

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

As palavras e os pássaros*


Da torre de marfim
Na ilusão do saber/poder
Ornados da vaidade e orgulho
Alguns se sentem deuses
Longe do povo aprendiz
Para que?
Para alimentar seus complexos
Se vestem de máscaras
Se fantasiam de donos da verdade
Criticam e julgam
Disfarçando suas misérias
Para que?
Nossas palavras são pássaros
Vozes que vem do coração
Que gritam da alma
Em versos simples descrevemos
O pão da terra e as lágrimas
De todos que vivem as dores
E amores do humano
Para que?
Para dar as mãos em parceria
Conseguir vencer as sombras
Dar um salto quântico
E no infinito se dissolver
Em pó de estrelas cósmicas.
Para que?
Para nada!
Pelo simples prazer
De sentirmos pertencentes
De sermos eternas crianças a brincar
Com letras e símbolos
No grande jogo do viver e ser.

*Dra. Rosângela Rossi
Psicoterapeuta. Escritora. Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*



"O médico é o 'instrumento por cujo intermédio a natureza é levada à obra... O remédio cresce espontaneamente e surge da terra, destarte nós nada criamos'. O que o médico faz não é obra sua. 'O exercício desta arte está no coração: sendo teu coração falso, também será falso o médico dentro de ti'"

"Sou médico e lido com pessoas simples. Sei, por isso, que as universidades não são mais fonte de conhecimentos. As pessoas estão cansadas da especialização científica e do intelectualismo racional. Elas querem ouvir a verdade que não limite, mas amplie; que não obscureça, mas ilumine; que não escorra como água, mas que penetre até os ossos"

"Muitas vezes já nos aconteceu redescobrirmos repentinamente um poeta. Isto ocorre quando nossa evolução consciente já alcançou graus mais elevados, e, a partir deles, o velho poeta nos diz algo de novo. Já existia antes em sua obra, mas era um símbolo escondido que só nos foi permitido ler após uma renovação do espírito da época"

"O home normal consegue suportar a tendência geral sem se prejudicar; mas o homem que caminha por atalhos e desvios, que não pode, como o homem normal, andar pelas amplas estradas principais, será o primeiro a descobrir o que se encontra afastado da grande estrada à espera de poder participar da vida"

"Por outro lado, os materiais fornecidos pelos psicóticos são ricos e de um alcance significativo que apenas poderemos encontrar nas produções dos gênios"

"Todo ser criador é uma dualidade ou uma síntese de qualidades paradoxais"

"A anomalia mental também pode ser uma espécie de sanidade mental, inconcebível para a inteligência mediana, ou um poder espiritual superior"

*C.G. Jung in"O espírito na arte e na ciência". Ed. Vozes. Petrópolis/RJ. 

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"De minha parte, só me sinto viver e pensar dentro de um quarto onde tudo é criação e linguagem de vidas profundamente diferentes da minha, de um gosto oposto ao meu, onde não encontro nada de meu pensamento consciente, onde minha imaginação se exalta sentindo-se mergulhada no âmago do não eu (...)"

"Lembrando Descartes: 'A leitura de todos os bons livros é como uma conversa com as pessoas mais virtuosas dos séculos passados que foram seus autores"

"(...) a diferença essencial entre um livro e um amigo não é seu maior ou menor grau de sabedoria, mas a maneira pela qual nos comunicamos com eles; a leitura, ao contrário da conversação, consiste para cada um de nós em tomar conhecimento de um outro pensamento, mas estando sozinho, isto é, continuando a gozar da força intelectual de que usufruímos na solidão e que a conversa dissipa imediatamente, continuando a poder ser inspirados, a permanecer em pleno trabalho fecundo do espírito sobre ele mesmo"

"A leitura está no limiar da vida espiritual; pode nela introduzir-nos, mas não a constitui"

"(...) a leitura age apenas à maneira de uma incitação que em nada pode substituir-se à nossa atividade pessoal"

"Enquanto a leitura for para nós a iniciadora cujas chaves mágicas abrem no fundo de nós mesmos a porta de moradas em que não conseguiríamos penetrar, seu papel em nossa vida será salutar"

"(...) O gosto pelos livros parece crescer com a inteligência"

"Depoimento de Céleste Albaret (governanta de Marcel Proust): 'Mas a maioria era gente vulgar (...) Depois de ter vivido num mundo maravilhoso eu não sabia mais me adaptar às pessoas comuns'"

"Lembra Céleste: 'Hoje entendo a busca de M. Proust, todo o sacrifício da sua obra: foi o de se retirar fora do tempo para poder reencontrá-lo'"

"Para Céleste: 'Costumo dizer que este foi o melhor teatro a que pude assistir em toda a minha vida. Esse jeito que M. Proust tinha de me comunicar um mundo que eu jamais conheceria de perto, de me transportar para dentro das histórias que contava, era como se quisesse segurar o tempo para não deixá-lo fugir, levando seus personagens. Ele falava, e o tempo parava naquele quarto'"

*Marcel Proust in "Sobre a leitura - seguido do depoimento de Céleste Albaret". Ed. L&PM Pocket.

domingo, 27 de agosto de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"O percurso serve para enriquecer a alma, fazendo com que ela mesma se torne uma alavanca, dando-lhe a capacidade de chegar cada vez mais a conhecer a si mesma"

"(...) O que realmente falta à beleza para ser tal, uma vez satisfeitas todas as exigências formais, deixou na verdade de ser focalizado durante muito tempo, até ser proclamada a necessidade de o artista possuir uma 'genialidade' especial, isto é, ter a capacidade de introduzir na sua obra o ingrediente imponderável, casual, desconhecido até por ele próprio, que faz a obra ser bela"

"(...) os desejos de vagar, de perder-se, de naufragar, são os traços distintivos da beleza na sua forma mutável. As 'vagas estrelas da Ursa' ou 'o pastor errante' confirmam o caráter nômade, mutante e indefinido da beleza, no seu migrar - dentro do 'espaço imaginário' - entre o determinado e o indeterminado" 

"(...) as teorias e as práticas artísticas se deslocam em direção de uma complexidade, capaz de inventar, vez por vez, as próprias regras"

"(...) Todavia, a verdade que se manifesta é notoriamente a-letheia, não-escondimento,  significando que não permite um desvelamento total de uma realidade, mas somente um seu aparecimento parcial, entre pensamentos e representações que projetam cada vez o seu inevitável cone de sombra, de impensado e de irrepresentável"

"(...) O poeta sente ou vê coisas que os outros nem percebem, e concebe ideias - filtradas e dobradas pelas paixões e pelos desejos - que os outros não captam a não ser por intermédio dele"

"A arte - particularmente a poesia e a pintura - constitui um segundo mundo, um contexto de plausibilidade do implausível, aquelas áreas da aparência 'ilusória', da qual Platão chega a desconfiar, por suspender a adesão imediata à normalidade e por fazer 'acreditar' provisória e indiretamente no incrível"  

"A arte mais sublime encontra o seu terreno mais fértil na proximidade dos abismos"

*Remo Bodei in "As formas da beleza". Ed. Edusc/SP. 2005. 

sábado, 26 de agosto de 2017

Notas sobre a filosofia e a ciência empírica*


As conquistas da ciência moderna, em si, não são ruins. O problema ocorre quando os cientistas esperam que sua área seja a resposta a tudo.

A ciência não abarca a ética, o valor, os princípios e o sentido. Para isso temos literatura, artes, filosofia, teologia, etc.

As conquistas científicas são inegáveis. Mas, pobre daquele que pensa que a humanidade “só avançou” depois da ciência moderna.

As ciências (empíricas) são ônticas, isto é, abordam entes específicos. A filosofia é ontológica, isto é, ela aborda o ser.

Se Deus existe ou não, isso não é uma questão para a ciência empírica. Onipresença, onipotência e onisciência não são âmbitos ônticos.

As ciências empíricas são ramificações da filosofia. Mas, jamais surgirá derivação que se ocupe da questão principal da filosofia: o ser.

A primeira necessidade que a ciência tem da filosofia é para defini-la. Não se define a ciência e o método científico por eles mesmos.

Aristóteles já praticava os rudimentos da ciência, integrando-os ao todo do conhecimento e orientando para a filosofia primeira: ontologia.

Não tenho a pretensão de ser rigoroso – no sentido acadêmico e filosófico – nas postagens de 140 caracteres. Nem acho isso possível.

Estou ciente e assumo o risco das ambiguidades, obscuridades e restrições dessa tentativa de ser sintético expressando-me em 140 caracteres.

*Prof. Dr. Miguel Angelo Caruzo
Filósofo. Escritor. Filósofo Clínico.
Teresópolis/RJ

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Para o poeta, para o filósofo, para o santo, todas as coisas são favoráveis e sagradas, todos os acontecimentos vantajosos, todos os dias santos, todos os homens divinos"

"A natureza é uma nuvem mutável que é sempre e nunca a mesma"

"Um homem que tem uma saúde robusta e um espírito inquieto possui a faculdade de rápida aclimatação, vive em sua carroça e perambula por todas as latitudes tão facilmente como um calmuco, junto ao mar ou na floresta ou na neve, ele dorme de modo igualmente confortável, come com igual apetite e convive de forma tão alegre, como se estivesse junto à sua própria lareira" 

"Tudo o que o indivíduo divisa fora de si corresponde a seus estados de espírito"

"Quando um pensamento de Platão torna-se meu pensamento - quando uma verdade que incendiou a alma de Píndaro incendeia a minha, o tempo não existe mais"

"Quando os deuses descem entre os homens, não são reconhecidos, Jesus não o foi; Sócrates e Shakespeare não o foram"

"Pode-se dizer que o sistema solar gravitacional já se acha profetizado na constituição do intelecto de Newton"

"O idiota, o índio, a criança, o garoto camponês ignorante estão mais próximos da luz pela qual a natureza deve ser lida do que o dissecador ou o antiquário"

"É fácil viver no mundo segundo a opinião do mundo; é fácil viver em solidão segundo nós mesmos; mas o grande homem é aquele que mantêm, em meio à multidão, com perfeita brandura, a independência da solidão"

"(...) um homem verdadeiro não pertence a nenhum outro tempo ou lugar, mas é o centro das coisas. Onde ele estiver, haverá natureza"

*Ralph Waldo Emerson in "Ensaios". Ed. Imago. RJ. 1994. 

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Quem está no comando?*


Certa vez uma fotógrafa me ensinou a sorrir. Explicou que para o sorriso ficar bonito, o segredo não era sorrir com a boca e sim com os olhos. É o brilho do olhar e não o branco dos dentes que transmite a beleza. Quem conhece um sorriso de verdade, sabe que nem todo palhaço é feliz. Se você olhar para a câmera e tentar enxergar por trás das lentes um amor, um sonho ou aquilo que faria você dançar no meio da rua, seus olhos vão transmitir graça e encanto. Nem é preciso sorrir, o olhar se encarrega da formosura.

Com a corrida acontece o mesmo. Não são as pernas que fazem correr, elas apenas nos transportam. Correr é muito mais que colocar um pé na frente do outro. Para correr é necessário ânimo, energia, determinação. O corpo é o veículo, mas o combustível é a paixão. Quando as pernas cansarem, experimente correr com o coração; provavelmente vai conseguir uma performance melhor, poderá contemplar a paisagem e até mesmo esquecer que está correndo. Quem treina por gosto não cansa, ama correr. 

Um velho amigo brincava dizendo que era a cabeça do casal, mas sua esposa era o pescoço, que o fazia girar para um lado e para o outro. Esta diferença entre intenção e execução também acontece com a sexualidade. O órgão sexual mais importante de nosso corpo está localizado entre as orelhas e não no meio das pernas. O desejo sexual surge em primeiro lugar na mente, e sem a comunicação nervosa, fica impossível experimentar qualquer sensação, inclusive o orgasmo, que necessariamente não precisa de estimulo mecânico para ocorrer. O intérprete da sexualidade são os genitais, o roteiro fica por conta da imaginação, mas o protagonista final é o afeto.

Também com a religião o desalinho permanece. Quando se faz uma oração com palavras decoradas repetidas automaticamente, onde nem se sabe direito o que está sendo dito, a conexão não acontece e o culto se esvazia. A função de uma prece é a elevação da alma para se conectar a Deus. Conectar-se é estar ligado, relacionar-se. Envolver-se. Não é preciso palavra alguma para se vincular a Deus, somente se “deusligar” das coisas mundanas, deixar a alma livre e a Deus se ligar.

Se o olho não brilhar, o sorriso entristece. Se não existir paixão, o corpo se arrasta. Se não há afeto, o sexo vira instinto. Se a alma não conectar, a prece não se eleva. E com o amor, quem está no comando? Cérebro, coração, corpo, palavras, sentimento, alma, Deus?

*Ildo Meyer
Médico. Escritor. Palestrante. Filósofo Clínico
Porto Alçegre/RS

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Lua adversa*


Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua…
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua…)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua…
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu…

*Cecília Meireles

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"A cada momento, um velho mundo está ruindo e um novo surgindo, mas nossos olhos são mais aguçados para o colapso do que para a ascensão, pois o mundo antigo é o mundo que conhecemos"

"Solidão e aposentos reduzidos são grandes incitadores da erudição"

"Todavia, o que é realidade ? Não sentimos materialidade em nós mesmos, e a própria matéria é efêmera"

"(...) o poeta deve 'defender os estúpidos e os loucos'. As irregularidades e desventuranças da própria família de Whitman, que incluía um irmão idiota com quem dividiu a cama durante anos, certamente contribuíram para sua empática compaixão pelos humildes, pelos miseráveis e até pelos criminosos"

"Sendo livres para formar nossa própria sociedade, nós acabamos formando-a com aqueles que têm ressonância conosco(...)"

"No decorrer de seu longo exílio, Joyce tentou recriar o som das vozes que o haviam envolvido nas casas e ruas e pubs de Dublin"

"Citando Hemingway: 'Escrever já é difícil o bastante - escrever prosa é trabalho em tempo integral - e a melhor parte é feita no subconsciente. Mas, se este estiver atulhado de negócios, resenhas, opiniões, etc..., não se consegue tirar dele merda nenhuma'" 

"(...) Ambos eram eruditos, mas não acadêmicos; eles eram, acima de tudo, professores de si mesmos. Ambos eram independentes e desgarrados, pugnazes e intransigentes em suas avaliações críticas"

"(...) qualquer leitor que toma em mãos uma obra de ficção assina um contrato pelo qual adquire com credulidade prazeres de aventura e resolução que sua vida real lhe negou"

*John Updike in "Bem perto da costa - ensaios e crítica." Ed. Cia das Letras. 1991.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Mundo*


“A compreensão significa o projetar-se em cada possibilidade de ser-no-mundo [...] existir como essa possibilidade.”
Martin Heidegger

O mundo é velho, vejo a foto, vejo a vida,
O mundo não passa da minha memória, ele se perde.
O mundo é uma árvore que virou pedra, o mundo é mais velho que minha dor.
O mundo circula a Terra, a velhice é o mundo, meu capuz é velho, tão velho que minha amada foi embora para outro mundo.
O mundo é o tempo que levo até meu trabalho, o lugar que invento mundos, que envelheço com minha dor e procuro fugir deste mundo naufragado, meu país é novo. Sou velho demais para o meu País.
Pudesse eu, se quisesse, te daria um mundo, o melhor dos mundos.
Não posso comprar nada, nem tudo nem nada, te devolvo os sonhos.
Vou dar a volta ao mundo, circular é a fonte de vida, quando menos se espera tem uma nascente.

*Prof. Dr. Luis Antonio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

domingo, 20 de agosto de 2017

Pensar é transgredir*


Não lembro em que momento percebi que viver deveria ser uma permanente reinvenção de nós mesmos — para não morrermos soterrados na poeira da banalidade embora pareça que ainda estamos vivos.

Mas compreendi, num lampejo: então é isso, então é assim. Apesar dos medos, convém não ser demais fútil nem demais acomodada. Algumas vezes é preciso pegar o touro pelos chifres, mergulhar para depois ver o que acontece: porque a vida não tem de ser sorvida como uma taça que se esvazia, mas como o jarro que se renova a cada gole bebido.

Para reinventar-se é preciso pensar: isso aprendi muito cedo.

Apalpar, no nevoeiro de quem somos, algo que pareça uma essência: isso, mais ou menos, sou eu. Isso é o que eu queria ser, acredito ser, quero me tornar ou já fui. Muita inquietação por baixo das águas do cotidiano. Mais cômodo seria ficar com o travesseiro sobre a cabeça e adotar o lema reconfortante: "Parar pra pensar, nem pensar!"

O problema é que quando menos se espera ele chega, o sorrateiro pensamento que nos faz parar. Pode ser no meio do shopping, no trânsito, na frente da tevê ou do computador. Simplesmente escovando os dentes. Ou na hora da droga, do sexo sem afeto, do desafeto, do rancor, da lamúria, da hesitação e da resignação.

Sem ter programado, a gente pára pra pensar.

Pode ser um susto: como espiar de um berçário confortável para um corredor com mil possibilidades. Cada porta, uma escolha. Muitas vão se abrir para um nada ou para algum absurdo. Outras, para um jardim de promessas. Alguma, para a noite além da cerca. Hora de tirar os disfarces, aposentar as máscaras e reavaliar: reavaliar-se.

Pensar pede audácia, pois refletir é transgredir a ordem do superficial que nos pressiona tanto.

Somos demasiado frívolos: buscamos o atordoamento das mil distrações, corremos de um lado a outro achando que somos grandes cumpridores de tarefas. Quando o primeiro dever seria de vez em quando parar e analisar: quem a gente é, o que fazemos com a nossa vida, o tempo, os amores. E com as obrigações também, é claro, pois não temos sempre cinco anos de idade, quando a prioridade absoluta é dormir abraçado no urso de pelúcia e prosseguir, no sono, o sonho que afinal nessa idade ainda é a vida.

Mas pensar não é apenas a ameaça de enfrentar a alma no espelho: é sair para as varandas de si mesmo e olhar em torno, e quem sabe finalmente respirar.

Compreender: somos inquilinos de algo bem maior do que o nosso pequeno segredo individual. É o poderoso ciclo da existência. Nele todos os desastres e toda a beleza têm significado como fases de um processo.

Se nos escondermos num canto escuro abafando nossos questionamentos, não escutaremos o rumor do vento nas árvores do mundo. Nem compreenderemos que o prato das inevitáveis perdas pode pesar menos do que o dos possíveis ganhos.

Os ganhos ou os danos dependem da perspectiva e possibilidades de quem vai tecendo a sua história. O mundo em si não tem sentido sem o nosso olhar que lhe atribui identidade, sem o nosso pensamento que lhe confere alguma ordem.

Viver, como talvez morrer, é recriar-se: a vida não está aí apenas para ser suportada nem vivida, mas elaborada. Eventualmente reprogramada. Conscientemente executada. Muitas vezes, ousada.

Parece fácil: "escrever a respeito das coisas é fácil", já me disseram. Eu sei. Mas não é preciso realizar nada de espetacular, nem desejar nada excepcional. Não é preciso nem mesmo ser brilhante, importante, admirado.

Para viver de verdade, pensando e repensando a existência, para que ela valha a pena, é preciso ser amado; e amar; e amar-se. Ter esperança; qualquer esperança.

Questionar o que nos é imposto, sem rebeldias insensatas mas sem demasiada sensatez. Saborear o bom, mas aqui e ali enfrentar o ruim. Suportar sem se submeter, aceitar sem se humilhar, entregar-se sem renunciar a si mesmo e à possível dignidade.

Sonhar, porque se desistimos disso apaga-se a última claridade e nada mais valerá a pena. Escapar, na liberdade do pensamento, desse espírito de manada que trabalha obstinadamente para nos enquadrar, seja lá no que for.

E que o mínimo que a gente faça seja, a cada momento, o melhor que afinal se conseguiu fazer.

*Lya Luft

sábado, 19 de agosto de 2017

Poética clandestina***














“A alquimia do verbo é um delírio.”
Arthur Rimbaud

Uma profecia de caráter excepcional recai sobre alguns escolhidos, que parecem surgir de uma cepa rara, sujeitos a descrever a saga do personagem marginal. Estruturados para surgir como transgressão, desconstroem a certeza de uma só versão para todas as coisas.

A atitude inesperada de toda razão oferece uma perspectiva plural na forma de poesia, filosofia, arte, subversão estética ao mundo instituído. No caso da inquietude filosófica, antes de virar comentário ou técnica acadêmica, é a concepção do eu como outros, reapresentada na inspiração libertária dos movimentos da irreflexão.

Um cavalheiro andante em busca de sua tribo encontra Adão e Eva no paraíso da singularidade. A palavra realiza uma poética das ruas. Seu caráter de profanação reivindica um ritual de iniciados. Os enredos do mundo novo percorrem as dialéticas do imprevisível. Visionários incompreendidos possuem a rara aptidão de conceder sabor de vida real aos delírios de criação.

Os apontamentos do devaneio se iniciam em um não saber. Abertura de alma em íntima interseção com os deslizes do cotidiano. Repercussão dos achados a tecer caricaturas pelas frestas da normalidade. Alguns segredos escolhem o silêncio desmerecido para acenar suas verdades.

Aproximação das margens com a reinvenção das águas. Essa linguagem é refém dos endereços existenciais por onde a pessoa transita. Em cada página um continente insinua sua geografia ao leitor das suas possibilidades. Ao integrar invisibilidades, a alquimia de viver sem intermediários se faz hermenêutica das incompletudes. Seu querer dizer aprecia abrigar múltiplos sentidos. A investigação procura os rastros desse estranho ao percorrer suas lacunas.

Aos rascunhos das entrelinhas restaria a condenação à fogueira dos versos malditos, não fosse a curiosidade pesquisadora a resgatar os traços de originalidade diante de si. Sujeitos inconformados com a rotina da intenção domesticada se associam como cúmplices do instante criativo. Articulam o encontro do absurdo com a raridade de sua tradução. Anotações preliminares em busca dos heróis dessa poética clandestina.

*Hélio Strassburger
Texto degustação. Integra o novo livro "A palavra fora de si". Editora Multifoco/RJ. Lançamento previsto para o dia 02/09 na Livraria Multicultura - Cidade Baixa em Porto Alegre/RS.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Mas a função do filósofo não será a de deformar o sentido das palavras o suficiente para extrair o abstrato do concreto, para permitir ao pensamento evadir-se das coisas ?"

"(...) leva em conta não apenas os fatos, mas também, e sobretudo, as ilusões - o que, psicologicamente falando, é de uma importância decisiva, porque a vida do espírito é ilusão antes de ser pensamento"

"Para as concepções estatísticas do tempo, o intervalo entre dois instantes é apenas um intervalo de probabilidade; quanto mais seu nada se alonga, maior é a chance de que um instante venha terminá-lo"

"Cumpre, pois, apreender o hábito em seu crescimento para captá-lo em sua essência; ele é assim, por seu incremento de sucesso, a síntese da novidade e da rotina, e essa síntese é realizada pelos instantes fecundos"

"Mas, por firmes que sejamos, jamais nos conservamos inteiros, porque nunca fomos conscientes de todo o nosso ser"

"Há decerto forças históricas que podem reviver, mas para isso elas devem receber a síntese do instante, assumir o 'vigor dos atalhos' - nós mesmos diríamos: a dinâmica dos ritmos"

"Como realidade, só existe uma: o instante. Duração, hábito e progresso são apenas agrupamentos de instantes, são os mais simples dos fenômenos do tempo"

"Lembra Roupnel: '(...) Ensina-nos a ver e a escutar o Universo como se só agora tivéssemos dele a são e súbita revelação. Reconduz a nossos olhares a graça de uma Natureza que desperta. Devolve-nos as horas encantadoras da manhã primitiva banhada de criações novas'" 

*Gaston Bachelard in "A intuição do instante". Ed. Verus. Campinas/SP. 2004.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Tudo passa*


Passarão as tempestades
O vento e a seca passarão
Passarão a fome e a sede
A chuva haverá de passar
Passará o dia e a noite
O tempo passará
Tudo passa
Tudo se esvai
Cai e vai...
A riqueza passará
Passará a graça
Passarão todas as dores
O riso e o choro passarão
Um dia passarão os amores
A vida e a morte passarão
Passarão o céu e a terra
Eu passarinho
Passarinho você.
Para onde vai, afinal
Aquilo que teima
Em não passar?

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Poeta. Especialista em Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Retrato do artista quando coisa*


A maior riqueza
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.

*Manoel de Barros

terça-feira, 15 de agosto de 2017

A liberdade e a gratidão*


Jamais deixamos de orbitar em nós mesmos, por isso, o contato com outras vidas é tão determinante e fundamental. É esse o fenômeno que nos lança na direção das descobertas que tanto precisamos encontrar e que sempre provém de dentro para fora de nós mesmos.

E assim, me parece que prosseguimos produzindo pontes altamente capazes de nos conectar, sobretudo, quando ousamos atravessá-las. Foi assim que encontrei em tantos abraços a força que faltava, pois de tão apertados, "pois-se" tudo no lugar.

Foi assim, que os melhores momentos se tornaram eternos figurando sempre no agora. Foi assim, que um beijo roubado despertou as melhores flores dos jardins de duas almas, as quais, em silêncio, conhecem a fundo os legados que deixaram tão somente por amor.

Foi assim que a poesia transbordou em mim trazendo a tona o melhor de nós mesmos e ainda, por conseguinte, o melhor que podíamos alcançar. Foi assim que nós nos transformamos e nos superamos juntos, não raro sob a aurora das suas brisas e sombras tão confortantes.

E fora justamente desses confortos que pude extrair forças para que outras vezes eu pudesse nos manter firmes mesmo quando a terra parecia tremer anunciando uma grande tempestade.

Portanto, pouco importa se a poesia aqui existe ou persiste, porque o seu ímpeto mais sincero do início ao fim mesmo não crendo em finitude, é que cada vez mais tudo venha a se converter ora em ecos de resistência e luta; ora de liberdade e gratidão. Musa!

Prof. Dr. Pablo Mendes
Filósofo. Filósofo Clínico. Educador. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Lemos, penso eu, para sanar a solidão, embora, na prática, quanto melhor lemos, mais solitários ficamos"

"Não temos palavra adequada para explicar Shakespeare: ele escapa a qualquer categorização disponível"

"Não somos a medida das coisas, mas os logrados pelas coisas. A Caverna é pessoal, uma toca fechada, isolada do mundo comum"

"Lembrando Samuel Johnson: '(...) ensinou-nos que a essência da poesia é a invenção, no sentido de descoberta'"

"Citando Alexander Nehamas: '(...) defende a hipótese de que Nietzsche encara a vida como um texto literário, seres humanos como personagens literários e o conhecimento como critica literária'"

"Tudo o que buscamos já está na nossa presença, e não distante de nós"

"O que há de melhor e mais maduro em nós há de responder, integralmente, àquilo que pretendemos enxergar"

"Contemplamos na vasta escritura de Cervantes aquilo que já somos"

*Harold Bloom in "Onde encontrar a sabedoria ?". Ed. Objetiva. 2004. RJ. 

domingo, 13 de agosto de 2017

O imaginar das palavras*

“Nós somos o seu mundo e elas o nosso. Para capturar a linguagem não precisamos mais que usá-las. As redes de pescar palavras são feitas de palavras.”
Octavio Paz

O que não nos permite mais nos vermos é o que permite de nós sermos sozinhos, por breve espaço do tempo, onde tudo se evaporou. Hoje ficou um vazio, uma solidão alojada ao lado do corpo inerte.

A tortuosa solidão está aí, na tela, no espaço entre os minutos que não lembraremos nunca mais e o que não permitirá que eu vá mais além, mas mesmo assim, mesmo, existe um processo de memória recente, algo que tange o lado sensível da reflexão. 

E os outros sentidos? O espaço imaginal, lugar em que tecemos nossos sonhos, e de lá tratamos de registrar, esse espaço que é o lugar do momento mútuo de ainda existir a possibilidade dos encontros.

Como se eu sentisse algo por alguém no plano virtual, mas que a idéia, numa construção, acaba dando espaço para a memória reconstituir todos os dias essa idéia.

Prof. Dr. Luis Antonio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

sábado, 12 de agosto de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Toda a vida da alma humana é um movimento na penumbra. Vivemos, num lusco-fusco da consciência, nunca certos com o que somos ou com o que nos supomos ser. Nos melhores de nós vive a vaidade de qualquer coisa, e há um erro cujo ângulo não sabemos. Somos qualquer coisa que se passa no intervalo de um espetáculo (...)"

"Que coisa morro quando sou ?"

"Transeuntes eternos por nós mesmos, não há paisagem senão o que somos. Nada possuímos, porque nem a nós possuímos. Nada temos porque nada somos. Que mãos estenderei para que universo ? O universo não é meu: sou eu"

"Há metáforas que são mais reais do que a gente que anda na rua. Há imagens nos recantos de livros que vivem mais nitidamente que muito homem e muita mulher"

"Mas, felizmente para a humanidade, cada homem é só quem é, sendo dado ao gênio, apenas, o ser mais alguns outros"

"Posso imaginar-me tudo, porque não sou nada. Se fosse alguma coisa, não poderia imaginar. O ajudante de guarda-livros pode sonhar-se imperador romano; o Rei de Inglaterra não o pode fazer, porque o Rei de Inglaterra está privado de ser, em sonhos, outro rei que não o rei que é. A sua realidade não o deixa sentir"

"Sou o intervalo entre o que sou e o que não sou, entre o que sonho e o que a vida fez de mim, a média abstrata e carnal entre coisas que não são nada, sendo eu nada também"

"Vivemos todos, neste mundo, a bordo de um navio saído de um porto que desconhecemos para um porto que ignoramos; devemos ter uns para os outros uma amabilidade de viagem"

"(...) esse episódio da imaginação a que chamamos realidade"

*Fernando Pessoas in "Livro do desassossego". Ed. Cia de Bolso. SP. 2014. 

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Oh beleza! Onde está a tua verdade?


Mulheres anorgásmicas por não conseguirem desligar suas mentes da imagem do corpo perfeito e capaz de seduzir, conquistar e prender o amor de um homem.

Escondida em conceitos de superficialidade, escondida em complexos de inferioridade, escondida em contextos de intelectualidade, escondida em buscas pela espiritualidade, escondida em aparentes estados de auto-suficiência, conformidade e integralidade.

A beleza que nunca é enxergada em sua essência, muitas vezes é encontrada na visão de mundo de cada um de acordo com o que é conveniente ou desejável apenas. Padrões e estereótipos são produzidos aos quilos diariamente aprisionando o ser humano, formatando seus níveis de desejo e aniquilando veementemente todo seu potencial de entrega em uma relação a dois que deveria ser vivida de forma saudável e desprendida de conceitos.

Mulheres anorgásmicas por não conseguirem desligar suas mentes da imagem do corpo perfeito e capaz de seduzir, conquistar e prender o amor de um homem. Frígidas em primeiro plano de tanto cultuar o próprio corpo em detrimento do envolvimento e do prazer que uma relação gostosa pode proporcionar.

Homens impotentes perante a imagem da Deusa em estatueta que inibe e constrange na medida do que é considerado intocável e pela inércia exercida em forma de inexperiência e valores absolutamente confusos. Impotentes também por sua autoestima em baixíssimo nível por, muitas vezes, relacionar sua virilidade ao padrão de homem moderno que, além de tudo, tem que vir em forma de galã de telenovelas.

Homens e mulheres cheios de saúde que poderiam usufruir em plenitude dos prazeres da carne somados a integralidade da alma, fazendo fluir pelos seus corpos as mais potentes energias, desperdiçando o que de verdade o sexo tem para oferecer.

Este é mais um mal da sociedade pós-moderna. Tanto se fala de sexo, tanto se cobra das posturas sexuais, tanto se conhece tanto se faz e nada contenta e nem completa. O desencontro é total. Faz-se sexo por sexo. Faz-se sexo porque é permitido fazer sexo, contudo, o descontentamento é geral.

O que ocorre frequentemente é que os parâmetros de escolha e seleção dos parceiros estão muito confusos. Diante de tanta imposição do mercado de consumo, as pessoas estão cada dia mais procurando parceiros cada dia mais difíceis de serem encontrados e, quando encontrados em sua forma física desejável, já estão com as cabeças detonadas de tanto buscar a tal perfeição. É complexo, mas é explicável.

Tem o caso de uma mulher que ficou bem aborrecida porque tinha encontrado um namorado interessante e parecia que tudo ia dar certo, a química bateu, tinham boa afinidade, eram maduros e, de repente, ele desistiu. Argumentou dizendo que se achava feio e velho para ela, que já nem era tão nova assim. Tinham cinco anos de diferença. Ele desistiu porque não aguentou a pressão de vê-la mais bonita e com aparência mais jovem. Ela era mesmo uma jovem senhora muito bonita e não aparentava a idade que tinha. Temeu pelo futuro, temeu sentir-se inseguro, temeu ser rejeitado por ela, temeu sentir ciúmes e simplesmente abriu mão de tudo que estavam sentindo, inclusive o enorme tesão. Ele era bem sucedido profissionalmente e pelo que ela me contou, tinha uma boa aparência. Era sensual, viril e muito divertido. Ela ficou muito entristecida e inconformada, mas acreditando nos argumentos dele respeitou sua decisão.

Outro caso interessante, foi o de uma outra mulher que era feliz com o próprio corpo mesmo sendo bem cheinha. Era sexy, bonita, cheirosa e tinha pleno domínio e conhecimento do que seria uma boa relação afetiva e sexual. Sabia amar sem restrições. Era sensual e tinha uma libido a toda prova. Sua dificuldade era encontrar um homem que não estivesse selecionando “aviões” para suas relações. Muito autêntica e muito extrovertida, teve a coragem de procurar saber o porquê de tanta rejeição, e alguém não menos corajoso, mas a meu ver, bem pretensioso disse a ela que estava fora dos padrões. Linda, 35 anos, independente economicamente e muito bem cuidada. Excluída do direito de amar e ser amada. Não fiquem triste, isto foi há algum tempo e ela hoje já tem alguém muito especial.

Outro caso interessante, foi o de uma outra mulher que era feliz com o próprio corpo mesmo sendo bem cheinha. Era sexy, bonita, cheirosa e tinha pleno domínio e conhecimento do que seria uma boa relação afetiva e sexual. Sabia amar sem restrições. Era sensual e tinha uma libido a toda prova. Sua dificuldade era encontrar um homem que não estivesse selecionando “aviões” para suas relações. Muito autêntica e muito extrovertida, teve a coragem de procurar saber o porquê de tanta rejeição, e alguém não menos corajoso, mas a meu ver, bem pretensioso disse a ela que estava fora dos padrões. Linda, 35 anos, independente economicamente e muito bem cuidada. Excluída do direito de amar e ser amada. Não fiquem triste, isto foi há algum tempo e ela hoje já tem alguém muito especial.

Tenho vários outros casos para contar onde pessoas sofrem por estarem fora dos padrões de beleza estabelecidos pela mídia. Pessoas com muito a oferecer, para somarem em tudo na vida de alguém.

O que as pessoas precisam entender definitivamente é que no sexo, vale muito mais o que se sente. É muito possível se realizar sexualmente com alguém que não se enquadre nestes tais padrões de beleza atuais. É certo que o fator atração, conta muito, mas acontece de nos sentirmos atraídos por alguém e não atendermos ao nosso desejo simplesmente por uma convenção. Às vezes, é nos braços de alguém assim que vamos ter as melhores sensações, que vamos vibrar mais, que vamos nos entregar sem amarras, que vamos deixar de buscar sempre por algo que nos complete que vamos sossegar nossos anseios.

Nesse afã de filtrar e selecionar o que é melhor para nós, baseados no que os outros ou no que o mundo estabelece, nos perdemos como pessoas integrais e perdemos oportunidades maravilhosas de sentir prazer de verdade, daquele chega até a alma. Por estarmos sempre preocupados em manter as aparências nos descuidamos do que é importante para nós.

Não quero dizer aqui, que não devemos nos cuidar, é claro que devemos, mas os exageros, como sempre podem provocar efeitos indesejáveis, como por exemplo, relações sexuais vazias, sem envolvimento sem a dose certa de excitação e com um prazer muito mais a nível egóico e incapaz de nos satisfazer.

É importante que compreendamos que somos um todo e que precisamos desse todo para chegarmos perto do que se chama felicidade.

Abraço bem apertado.

*Jussara Hadadd
Escritora. Palestrante. Especialista em Filosofia Clínica
Juiz de Fora/MG